Qual é o alcance do streetwear entre a geração Z? E até que ponto esse mercado influencia o consumo?



Foto por Force Majeure no Unsplash

Patricia Sant’Anna

Entender a geração Z (nascidos entre 1996 e 2010) e entender também o consumo no momento em que vivemos. Isso porque a ultima geração de adultos constrói o mundo ao seu redor, e acaba influenciando as outras gerações. O mundo de hoje é feito por e para a sensibilização da geração Z.

É muito característica dessa geração a moda com pegada streetwear. Normalmente, quando falamos desse segmento, falamos de marcas antigas que foram reinventadas recentemente, e que, para a nova geração, tiveram uma recolocação no mercado. All Star se despe um pouco do espírito “rebelde” para falar mais de autenticidade; Adidas, Nike e Vans investem na diversidade e num conjunto de valores, tudo para conquistar os Zs

A reboque, vêm também outras marcas tradicionais, que, ao contrário das citadas acima, que se mantinham perenes perpassando várias gerações, haviam caído no ostracismo. Como a Champions, criada no começo do século XX, que teve notoriedade nos anos 1990 e agora volta repaginada, retomando o estilo daquela época. Especialmente marcas de street no início dos anos 1980, como a Stüssy, e meados dos anos 1990, como Supreme e a japonesa A Bathing Ape – suas épocas em que o streetwear ganhou grande força na moda. Todas surgiram a partir de culturas consideradas “underground” relacionadas a esportes e grupos de jovens. Enquanto a Stüssy foi criada por um adolescente no círculo dos surfistas de Long Beach (na Califórnia), a Supreme nasceu do contexto bastante urbano de skatistas de Nova York.

Hoje, reposicionadas, essas marcas abraçam o streetwear de modo geral – sem especificidades de cada esporte. Aliás, tem muito a ver com a geração Z não se separar mais em grupos específicos, ao contrário da X e parte da Y: eles abraçam o diferente com muita facilidade.

No entanto, essas marcas de streetwear trazem de sempre: moletom, T-shirt, calca jeans five pockets, agasalhos, jaquetas puffers, tênis, acessórios… inclusive, inventam outros ícones de acessórios, das famigeradas pochetes às munhequeiras. Não se trata de uma roupa ostensiva, não é rebuscada. É fácil de usar, trata-se de uma ostentação muito casual e fácil de usar.

A disseminação do streetwear tem muito a ver com um grupo específico de consumidores, como veremos a seguir.

Um grupo específico, impulsionado pela mídia


O streetwear dessas marcas tem se tornado tão relevante e influente que outras marcas abraçam a estética. É só ver a última coleção-cápsula masculina da Valentino, em colaboração com os artistas Sam Wiehl e Forest Swords, formada basicamente por camisetas, moletons e puffers, algo que não veríamos tradicionalmente na grife. A Prada também lançou uma coleção bastante esportiva recentemente, com Willow Smith como uma das garotas propaganda. A linguagem do streetwear é tão forte que chega ate neste nível.




Ao mesmo tempo, o fast fashion investe na mesma linguagem, criando produtos muito parecidos com os das marcas de streetwear em versão muito mais acessível. Como sempre, a moda rápida democratiza e dissemina em profusão (“viraliza”?) estilos de moda. É curioso ver o quanto existem inúmeros influenciadores nas mídias sociais, principalmente no Instagram, que fazem o “tutorial” de como se vestir, e não é exagero dizer que praticamente todos usam malha, tênis etc., muito casual e simples – o que na verdade nem precisaria de um “tutorial”, para começar.

Porém, mesmo democratizado, um dos pilares do streetwear é a ostentação – de peças caras, raras, mas ainda muito simples, sempre aliada a um logo ou outro elemento de identidade visual de uma marca muito reconhecível. Seja uma marca tradicional que entrou no segmento – como a Valentino – sejam as marcas que já nasceram streetwear – como a Supreme – elas têm os altos preços sempre associados. Mas são preços que correspondem apenas ao valor simbólico (marca) e não a qualquer característica do produto – uma T-shirt branca é uma T-shirt branca!

Os preços exorbitantes do streetwear chamaram a atenção no ano passado, quando a série de vídeos Quanto Custa o Outfit? viralizou. A série foi produzida pelo Hype Content Br , canal do YouTube criado por dois jovens fãs do streetwear, interessados em documentar a “cena” (aliás, segundo seus fundadores, o vídeo foi bastante descontextualizado). Quanto Custa o Outfit? circulou entre pessoas que concordavam (e desejavam) com esse lifestyle e muitas outras que passaram a debochar de um investimento tão grande em peças de roupa. E, mais do que isso, debochar do que significa ostentar o quanto custou a peça. Outra característica que chamou a atenção foram os jovens que não conheciam marcas muito tradicionais e estabelecidas antes de elas investirem em streetwear, e por isso mal sabiam pronunciar seus nomes (Gucci virava “gussi”, por exemplo).




Mas é importante ressaltar que o potencial de viralização dessas marcas e produtos na internet não significa que muitos consumidores tenham acesso a elas. Elas apenas são pertinentes para pensar locais que têm ainda possibilidade de crescimento grande (especialmente nos grandes centros), e consumidores que são filhos de uma classe média alta que ainda se mantém. Ou seja, esse grupo de consumidores é pequeno. Mas ele influencia consumo, uma vez que aparece com tanta forca na mídia. Isso chega à maioria da classe média por meio do fast fashion, como dito anteriormente, e não pelas marcas de streetwear propriamente. Até que ponto algo que tem alarme na mídia é efetivamente um mercado? É algo para se pensar se falamos de streetwear.

O preço alto desses produtos também chamou a atenção e foi o principal mote para a valorização deles. Que moda não se trata de preço de produto mas sim de valor simbólico, já está bem estabelecido. Mas, no caso dessas marcas, por que o valor simbólico tão alto? Por um produto tão simples?

Os preços chamam tanto a atenção que se tornaram também objeto de ironia e apropriação, algo bem relacionado também ao comportamento da geração Z. Quando, por exemplo, uma marca menor ou mesmo uma de fast fashion troca os logos originais com humor ácido, embora nada agressivo (veja o painel abaixo). É certo que muitos dos logos de streetwear partem do universo das artes visuais (como a própria Supreme, inspirada nas obras de Barbara Kruger), ou seja, já é uma apropriação, mas é muito interessante reparar em como as apropriações vão se sobrepondo.

Ironia e apropriação da Supreme em várias marcas de fast fashion.

Contraponto com o consumo consciente

A geração Z, embora seja bastante influenciada pelas marcas de streetwear (e pela estética que deriva delas), possui um contraponto que torna complexo compreender o consumo desses jovens. Se, por um lado, existem os que são consumistas e podem investir tanto em marcas de street quanto em fast fashion, há os que se desligam disso e são consumidores conscientes, interessados em marcas sustentáveis e que diminuem consideravelmente o consumo.

A Tendere apontou essa cisão no 13o Seminário de Tendências – primavera-verão 2020, em junho de 2018, no painel “O Futuro do Consumo”. Recentemente, em outubro, o site norte-americano Refinery29 lançou uma matéria debatendo exatamente o mesmo tema, intitulada “Generation Z & the Fast Fashion Paradox”.



Material apresentado pela Tendere em junho de 2018, para primavera-verão 2020: muito pertinente para entendermos a cisão atual da geração Z.

É preciso ter em mente essa divisão para entender a geração Z mais a fundo. Por um lado, com o advento das mídias sociais, plataformas online de fast fashion como a Fashion Nova e influenciadores ostentando o consumo intensivo. O streetwear reforça este panorama, seja por meio das marcas – consumo muito caro e muito rápido – seja pelas apropriações e reformulações no fast fashion. Por outro lado, estamos falando de pessoas ligadas a sustentabilidade, preocupadas com os valores (e a transparência) que as empresas pregam, que consomem menos e com mais qualidade. Essa cisão continua relevante para pensar o consumo desses jovens adultos.

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Existe uma relação direta entre dinheiro e realização pessoal?



Foto por Clay Banks no Unsplash

Victor Barboza

Se você ganhasse muito dinheiro na loteria, como você usaria o prêmio? A primeira coisa que vem na cabeça da maioria das pessoas é relacionada a gastos envolvendo lazer e status, como compra de carros, imóveis e viagens. Porém, várias pessoas que ganharam o prêmio, mesmo com todos estes itens, continuam frustradas. Será que há uma relação direta entre dinheiro e bem-estar?

Antes de mais nada, sabemos que todos os seres humanos possuem necessidades. Quando perguntado, cada indivíduo acaba tendo uma visão diferente das suas necessidades, e atribui as diferentes pesos para cada uma delas, muito em função do contexto e da realidade em que está inserido.

A hierarquia das necessidades

Para entender melhor esta questão das necessidades, o psicólogo norte-americano Abraham H. Maslow, na década de 50, criou a hierarquia das necessidades, mais conhecida como Pirâmide de Maslow. O grande objetivo de Maslow foi de determinar o conjunto de condições necessárias para que um indivíduo alcance a satisfação. E a perspectiva desta satisfação, para Maslow, é justamente o que motiva cada pessoa.



Pirâmide de Maslow (https://www.coachilla.co/blog/the-new-hierarchy-of-needs)

A figura acima representa a Pirâmide de Maslow. Nela, cada nível da pirâmide representa uma hierarquia, sendo as mais básicas na base, avançando até as mais elaboradas, no topo. As necessidades base são aquelas consideradas necessárias para a sobrevivência, enquanto as mais complexas são as necessárias para alcançar os máximos níveis de satisfação, tanto pessoal quanto profissional.

Assim, temos os seguintes níveis da pirâmide, listados de baixo para cima:

  • Fisiológicas: são as necessidades mais básicas, necessárias para garantir a sobrevivência e manter o corpo saudável. São exemplos destas necessidades: alimentos, água, ar, sono.

  • Segurança: envolve as sensações necessárias de proteção. São exemplos de necessidade: abrigo e estabilidade.

  • Amor e Relacionamentos: são as necessidades relacionadas com o senso de pertencimento e intimidade. São exemplos: amizade, família, relacionamentos.

  • Estima: é a necessidade de sentir-se estimado e reconhecido. São exemplos: autoestima, confiança e respeito.

  • Realização Pessoal: são as necessidades mais complexas do ser-humano. São necessárias para que o indivíduo alcance a verdadeira realização pessoal e profissional. São exemplos: moralidade, valores, independência, criatividade, autoconhecimento..

Ou seja, subir cada uma das hierarquias da pirâmide gera, cada vez mais, uma sensação de bem-estar para o indivíduo, porém, muitas vezes, o combustível para subir determinado degrau pode envolver dinheiro:

Necessidades Fisiológicas: não é necessário pagar pelo que se respira, porém, a maioria das pessoas precisa pagar pela água que bebe, pela comida que come e pelo espaço para dormir.

Segurança: do ponto de vista de espaço físico, buscar maior segurança exige, em boa parte dos lugares, maiores gastos. Casas e apartamentos dentro de condomínios, alarmes, cerca elétrica são alguns destes gastos. Do ponto de vista de estabilidade, não precisa-se gastar mais, mas sim, trabalhar para formar reservas de emergência.

Nos demais degraus, o dinheiro não impacta diretamente o alcance das necessidades, mas ele pode impacta-los indiretamente. E, sem ter os dois primeiros degraus bem estruturados, é muito improvável que o indivíduo consiga chegar no topo da pirâmide.

Além das necessidades listadas na pirâmide, Maslow também identificou algumas necessidades complementares: aprendizado, satisfação estética e transcendência. Algumas delas, para serem alcançadas, também exigem dinheiro.

Isto nos mostra como o dinheiro acaba tendo uma relação com o bem-estar do indivíduo. É a partir daí que surge o conceito de bem-estar financeiro.

Mas afinal, maior renda = maior bem-estar financeiro?

O conceito de bem-estar financeiro foi estudado a partir de 2015, pelo Órgão de Proteção ao consumidor financeiro dos Estados Unidos, o CFPB. Antes de qualquer definição, em primeiro lugar é importante afirmar que não há uma relação direta entre bem-estar financeiro e renda. Muita gente afirma que se ganhasse mais estaria mais feliz. Porém, vemos muita gente que ganha muito dinheiro, como jogadores de futebol, cantores e artistas, que podem não ser tão “felizes”, ou ter algum nível de depressão ou ansiedade, dentre outras questões psicológicas.

Assim podemos dizer que aumento da renda pode sim ajudar no aumento do bem-estar financeiro, mas somente se outras condições forem atendidas.

E como fazer para ter (ou não ter) bem-estar financeiro?

A frase acima pode ser uma indagação de muita gente. Porém, o bem-estar financeiro não é algo que um indivíduo tem ou não tem, mas sim um estado que transita numa escala de estresse financeiro absoluto até bem-estar financeiro total.

Seria algo similar à felicidade. Uma pessoa não é feliz o tempo todo, mas sim, a cada momento caminha numa escala. O desafio é tentar manter-se na maior parte do tempo nos níveis mais altos, e, quando estiver nos níveis mais baixos, conseguir superá-lo no menor tempo possível.




O que define o bem-estar financeiro?

No estudo do CFPB, o que define o bem-estar financeiro é o estado no qual o indivíduo:

  1. Tem controle sobre suas finanças

  2. Tem capacidade de absorver choques financeiros

  3. Tem ações para atingir seus objetivos financeiros

  4. Tem liberdade financeira para fazer escolhas que lhe permita aproveitar a vida

Desta forma, para atingir o bem-estar financeiro, cada um destes pontos deve ser bem desenvolvido. Isto forma quatro grandes pilares:

  • Controle Financeiro: a boa educação financeira é de extrema importância para que o indivíduo consiga ter controle sobre o seu dinheiro, e não “ser controlado” por ele. Este controle é fundamental para que, em primeiro lugar, a pessoa consiga gastar menos do que recebe, evitando dívidas.

  • Tranquilidade Financeira: mais do que conseguir pagar as contas do mês, é importante que o indivíduo também consiga poupar e formar reservas. Imprevistos acontecem na vida de qualquer um, e, podem exigir gastos que estavam fora do planejamento. Para isso, as reservas acabam gerando a sensação de maior tranquilidade

  • Objetivos: todo mundo tem objetivos, mas muita gente não consegue realizá-los, justamente pela falta de dinheiro. Para consolidar estes objetivos, é importante criar um hábito poupar. Mais do que guardar, investir pode fazer o dinheiro trabalhar para você. Mas para isso, é importante que os dois pontos anteriores estejam bem lapidados.

  • Liberdade Financeira: é vista como a fase em que o indivíduo tem a possibilidade de parar de trabalhar por ter recursos que o sustente para o resto da vida. Nesta fase, mesmo continuando a trabalhar, o indivíduo pode extrapolar de vez em quando que suas finanças continuarão estáveis

Para tentar mensurar o nível de bem-estar financeiro, o CFPB criou uma escala que passou a ser usada mundialmente. São feitas dez perguntas que geram respostas que são convertidas em uma pontuação, de 0 a 100, para chegar num índice de bem-estar financeiro. Aqui no Brasil, quem ficou responsável pela mensuração foram a Confederação Nacional de Dirigentes e Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), com apoio da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

O gráfico acima mostra como está o bem-estar financeiro do brasileiro. Como a escala vai de 0 a 100, repare que a situação não é das mais favoráveis.

Como melhorar o bem-estar financeiro?



Fonte: SPC Brasil

O gráfico mostra bem a realidade de grande parte das pessoas. Muita gente endividada, pouca gente conseguindo investir bem. Não existe um passe de mágica ou uma fórmula pronta que aumente o bem-estar financeiro da noite para o dia, mas sim, algumas dicas que podem te ajudar.

A primeira dica é o comportamento financeiro. Na teoria a coisa parece muito simples, pois basta gastar menos do que recebe para chegar numa folga financeira. Porém, a prática é muito mais complexa, pois muito além dos conceitos, está o comportamento. E comportamentos financeiros estão relacionados aos hábitos. O que precisa ser feito é consolidar os hábitos de planejar, controlar, poupar e investir, por exemplo.

A segunda dica envolve a busca pela boa educação financeira. Esta base está relacionada ao conjunto de habilidades que a pessoa tem para lidar com o dinheiro. Conceitos e práticas permitirão que o indivíduo saiba tomar as melhores decisões envolvendo o seu dinheiro.

E a terceira dica consiste no autoconhecimento. As pessoas funcionam de formas diferentes e possuem objetivos distintos. Para conquistar altos índices de bem-estar financeiro, é importante que você não se compare aos outros, mas tenha seus próprios padrões. Ajuda também caso você seja persistente, olhe sempre para o futuro e acredite!

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Por que diversidade “de fachada” é ainda tão comum em empresas e marcas?




Vivian Berto e

Patricia Sant'Anna

A aplicação do termo “diversidade” compreende posicionar empresas, instituições e pessoas para que incluam o número mais diversificado possível de pessoas em relação a questões como etnia, gênero, religião, orientação sexual, biótipo, posicionamento, estilo de vida, entre outros. Não dá mais para falar de marketing, marca, empresas, trabalho, produtos, posicionamentos, enfim, quase de tudo, sem diversidade. Ela leva em conta que uma empresa é igualitária em relação a oportunidades e reflete o mundo ao seu redor. Na verdade, as empresas deveriam simplesmente corresponder ao que as pessoas já são no “no mundo real”: diversas, diferentes entre si.

É claro que apontar a diversidade compreende deslocar o protagonismo de alguns grupos que ja têm todos os holofotes para os que foram por muito tempo ignorados, ou, pior, descriminados. É criar condições para atender pessoas com deficiência, num universo que até antes só pensava em pessoas sem deficiência. É pensar em como auxiliar mulheres em ambientes e situações que antes eram basicamente masculinos, como na direção de grandes empresas, por exemplo. É pensar pessoas negras em relação a empresas ou produtos que pareciam apenas considerar que existem pessoas brancas no mundo. É atender a públicos diversos, criando benefícios de ambos os lados - tanto dos consumidores quanto das empresas. E, ao mesmo tempo, é possível pensar em mercados mais amplos, em novos mercados. Por isso, grandes empresas investem cada vez mais, inclusive, na contratação de Diversity Chief Officers, além de equipes totalmente voltadas para isso, Como já falamos muitas vezes na Tendere, diversidade vende!

Por exemplo, segundo a Unesco, quase 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência (visual, motora, mental, auditiva ou intelectual). Esse também é o tamanho, por exemplo, do mercado para produtos de design (moda, decoração, mobilidade, serviços etc.) que são muito pouco atendidos no país (e no mundo). Para entender o papel da inclusão de pessoas com deficiência há diversos TEDs sobre o assunto (recomendamos ver essa playlist de TEDs dedicados ao tema), mas um é especialmente importante para nós, porque ele revela como não incluir é uma ação simbólica violenta de exclusão. E o design pode fazer algo que realmente pode transformar o mundo.


Nos mercados de moda e de beleza, esse tema ganha ainda uma importância específica, já que se tratam de produtos e serviços que constroem diretamente a aparência, a vida cotidiana das pessoas. Falar em diversidade de corpos e de padrões de beleza e fazer uma marca que fala direto com a cliente. Se a Victoria’s Secret enfrenta hoje dificuldades financeiras, não resistimos em apontar que a massiva maioria das mulheres não se identifica com os corpos padronizados que são ali mostrados, em desfile, campanhas, nas lojas etc. E que, atualmente, elas precisam, querem, exigem se identificar. Marcas nascentes, que se arriscam nesse caminho já começam a colher frutos e a despertar o interesse de empresas de grande porte que foram resistentes a ver e compreender que o mundo mudou.

Diversidade “de fachada” ou Bluewashing

A urgência das empresas por atender essa demanda, aliada à pesquisa pobre e implementação preguiçosa, muitas vezes gerou soluções torpes e pouco eficazes em relação à diversidade. Comparando com o chamado greenwashing, termo que se refere a empresas que são “sustentáveis de fachada” sem propor soluções de verdade, existem muitos casos de empresas que aplicam a “diversidade de fachada”, quando ela fica só no discurso e realmente não inclui pessoas diversas. A isso dá-se o nome de bluewashing quando o discurso de responsabilidade social (diversidade entra aqui) não condiz com a prática e cultura da empresa.

Isso acontece, por exemplo, quando empresas se posicionam enquanto diversas ao mesmo tempo em que tem pessoas muito parecidas entre si nas suas equipes de trabalho, por exemplo, fala-se de diversidade, mas quando você olha para as pessoas que trabalham na empresa só conseguimos ver uma majoritária presença de homens, brancos, heterossexuais e sem deficiência. Quer saber mais sobre isso, recomendamos conhecer a startup Incluser. Ela avalia e demonstra, por A+B, porque é uma boa as empresas serem mais diversas.

Primeiro passo para uma diversidade levada a sério, é colocá-la para dentro da empresa de verdade. Por exemplo, há pouco tempo, participamos de uma mesa de debates no Brasil Eco Fashion Week (BEFW) sobre Moda Agênero. E, notou-se (1) que as pessoas trabalham com moda (uma forma de expressar simbolicamente quem as pessoas são no mundo) e elas não são informadas sobre questões de gênero, teoria queer, debates sobre corpo e corporalidade. Não parece contraditório? Quem trabalha com moda, trabalha com corpo, mas não se atem, ou não é informado sobre debates sérios e importantes sobre o suporte principal do vestuário. (2) há uma preocupação no público de entender e saber como atender efetivamente um público que não quer ser identificado de maneira binária. E uma das questões pertinentes que surgiram foi: Como posso fazer isso em minha marca sem fazer só ‘de fachada’? A resposta já estava na ponta da língua de todos participantes da mesa: quantas pessoas dentro de sua empresa são ou vivenciam moda agênero?




Em resumo, não dá para uma empresa desejar ofertar produtos e serviços para afrodescentes, se essa empresa se quer tem um afrodescente em seus quadros de colaboradores. Não dá para uma agência publicitária falar sobre a maneira como as mulheres consomem cerveja, se todos que pensam e falam sobre isso são homens, não dá para criar soluções para pessoas deficientes se não há o convívio e a comunicação franca com pessoas com deficiência. Não é possível falar sobre empoderamento feminino e na prática, uma empresa com centenas de mulheres (isso é bem comum em indústria da moda e criativa no geral) não tem, por exemplo, uma creche para oferecer às suas colaboradoras. Portanto, não dão boas condições para que as mulheres conciliem tranquilamente família e trabalho. Podem até demitir mães que acabaram de ter filhos, após os seis meses obrigatórios que o Ministério do Trabalho exige garantir após uma mulher que teve filho voltar para o espaço de trabalho.

Há ainda, a fatídica pergunta, em especial feita a mulheres que passaram dos 25 anos: “Você tem filhos? Pretende ter? Com quem eles vão ficar enquanto você trabalha?”. Ao fazer essa pergunta a empresa está diretamente tentando, ou ainda, evitando contratar futuras mães. Será que um recrutador perguntaria isso a um homem? Será que um homem já ouviu esse tipo de pergunta quando passava por uma seleção? Provavelmente não, afinal, se pressupõe que são as mulheres que vão cuidar dos filhos, portanto, o homem está liberado para seus afazeres profissionais. A plataforma ‘Contrate uma Mãe’, uma iniciativa da agência TeamWorker, tem como objetivo ao menos tentar diminuir esse gap na vida profissional das mães.

Algumas modelos e influenciadoras plus size já apontaram (sem citar diretamente o nome de seus clientes) marcas que não têm tamanhos de roupas que as vestem, embora as contratem para manter uma fachada de “diversidade de corpos” em suas campanhas. E, geralmente, as mulheres gordas de muitas campanhas de moda e beleza são tipos muito específicos (cinturas e canelas finas, por exemplo), longe do que a o público poderia se identificar.

Muitas marcas de maquiagem brasileiras, apesar de nossa grande diversidade e mistura étnica, ainda não aprenderam a lição sobre a diversidade de tons de pele. “Muitas vezes a informação está gratuita na internet, nós dizemos o que queremos, mas muitas marcas ainda vendam os olhos para nossas pautas”, disse o maquiador e influenciador Tássio Santos sobre o tema. Ele é autor de uma série de vídeos que dizem sobre “O Tom mais Escuro”, que aponta qual é o tom de cada marca - muitas delas, com apenas 1 tonalidade para peles negras. Como apontado por ele, e, como dito, abertamente na internet por influenciadores e consumidores, a pele negra retinta é sistematicamente ignorada. Oportunidade que não é contemplada pelo mercado.




Quais são os impactos?

A “diversidade de fachada” pode ser letal para a imagem de uma marca e/ou empresa. Com os consumidores se tornando cada vez mais exigentes, cada vez mais informados, ainda mais se tratando de transparência, descobrir que a diversidade estava apenas no discurso (e que não bate com seus valores e práticas da empresa) é um caminho sem volta para parar de consumir uma determinada marca, produto ou serviço. Por isso, é triste que tantas empresas ainda apostem em falar de diversidade, mas não fazê-la em seu dia-a-dia.

A diversidade “fake” também pode vir associada a um outro contexto, que é a diversidade “importada”. Muitas vezes, empresas brasileiras copiam imagens de diversidade do espectro norte-americano e de alguns países da Europa. E elas podem não corresponder ao nosso contexto. Na questão étnica, ela se torna ainda mais evidente, justamente por causa de uma formação histórica bastante dissidente entre essas regiões. Por exemplo, uma pessoa considerada negra nos Estados Unidos pode ser considerada branca no Brasil, afinal cores são lidas dentro do espectro cultural local. Do mesmo modo, a ideia de “pessoas latinas” por lá pode não ter significado nenhum na América Latina, onde essas pessoas podem considerar-se somente brancas ou pardas. Também podemos pensar em como a miscigenação no Brasil e nos EUA se deu em contextos muito diferentes. Na América Latina, a presença indígena é fortemente miscigenada, o que faz com que tenhamos muitos descendentes de indígenas atualmente circulando por todo os lugares. Os corpos dos latino-americanos que têm ascendência indígena têm formas específicas que se diferenciam dos corpos dos descendentes de negros e de brancos, europeus (por exemplo, formatos de pés, que tendem a ser mais largos). Há uma cegueira em frente a este público. Em toda a América Latina, ignora-se este mercado como se ele fosse exceção, enquanto, na realidade é ele que configura a maioria dos corpos latino americanos.

Chegamos à conclusão de que a há uma aplicação muito tímida sobre resolver problemáticas de públicos diversos. A diversidade, dentro da indústria criativa, é pouquíssimo contemplada. O que gera uma população imensa que não é notada enquanto consumidora. Será que isso se dá porque não existe um mercado ou é “preguiça” de procurá-lo e dar soluções exequíveis para esses grupos de consumidores? Existem muitas oportunidades que podem ser perdidas por conta dessa cegueira, e investir em diversidade, tal qual em sustentabilidade, não pode ser apenas de fachada ou aplicado de qualquer jeito somente porque os concorrentes o estão fazendo. Agora é realmente o momento de responder: Quais oportunidades sua empresa está perdendo agora por não levar a diversidade a sério?

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