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Por que o Sul Global não pode ser tratado como variação do Norte

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    Tendere Tendere
  • há 14 horas
  • 4 min de leitura

Tratar o Sul Global como uma simples variação do Norte Global é um erro analítico recorrente, e que pode trazer danos a qualquer estratégia. Essa leitura parte de uma lógica evolucionista segundo a qual os países do hemisfério norte representariam um estágio “avançado” de desenvolvimento, enquanto o Sul seria uma versão incompleta, atrasada ou em transição desse mesmo modelo. A pesquisa social crítica, especialmente a qualitativa, demonstra exatamente o oposto: o Sul Global constitui um espaço histórico, cultural e socioeconômico próprio, moldado por trajetórias específicas de colonização, dependência e resistência, que não podem ser compreendidas por analogia direta com experiências europeias ou norte-americanas (Quijano, 1991).


Pesquisa qualitativa no Sul Global revela que cultura, comportamento e consumo no Brasil não são variações do Norte, mas expressões de contextos históricos e sociais próprios. Entender o território é essencial para decisões estratégicas mais precisas.
Pesquisa qualitativa no Sul Global revela que cultura, comportamento e consumo no Brasil não são variações do Norte, mas expressões de contextos históricos e sociais próprios. Entender o território é essencial para decisões estratégicas mais precisas.

A história do colonialismo é central para essa distinção. Nos países do Sul Global, incluindo o Brasil, a América Latina, grande parte da África e da Ásia. A modernidade não chegou como um processo endógeno, mas como imposição externa articulada à exploração econômica, à violência simbólica e à reorganização forçada de modos de vida e sistemas de conhecimento. A colonialidade, como continuidade estrutural desse processo, permanece operando mesmo após a independência política, moldando relações de poder, hierarquias sociais e padrões de validação do conhecimento (Quijano, 1991; Nascimento, 2021). Ignorar esse dado histórico é naturalizar assimetrias e reproduzir leituras eurocêntricas do mundo.


O Minhocão, em São Paulo, exemplifica como as cidades do Sul Global ressignificam a infraestrutura urbana: via expressa durante a semana, espaço de lazer nos fins de semana. Estilos de vida, consumo e uso do espaço público emergem de contextos próprios, e só a pesquisa qualitativa consegue interpretá-los em profundidade.
O Minhocão, em São Paulo, exemplifica como as cidades do Sul Global ressignificam a infraestrutura urbana: via expressa durante a semana, espaço de lazer nos fins de semana. Estilos de vida, consumo e uso do espaço público emergem de contextos próprios, e só a pesquisa qualitativa consegue interpretá-los em profundidade.

Do ponto de vista econômico e geopolítico, as diferenças também são estruturais. O Norte Global concentrou, ao longo dos séculos, capital, infraestrutura, instituições e capacidade decisória, enquanto o Sul Global foi integrado ao sistema mundial de forma subordinada, como fornecedor de recursos, mão de obra e mercados consumidores. As instituições internacionais e os regimes globais de governança foram majoritariamente desenhados a partir de interesses do Norte, limitando a autonomia do Sul em temas como comércio, desenvolvimento e mudanças climáticas. Como apontam análises contemporâneas sobre o conceito de Sul Global, trata-se menos de uma localização geográfica e mais de uma posição histórica em relações desiguais de poder (Commons Library, 2023; Jornal da USP, 2022).

América Invertida (1943), de Joaquín Torres García, simboliza o Sul Global como ponto de partida e não como cópia do Norte. Para empresas, a mensagem é clara: entender mercados do Sul exige leitura cultural própria e pesquisa qualitativa ancorada no território.
América Invertida (1943), de Joaquín Torres García, simboliza o Sul Global como ponto de partida e não como cópia do Norte. Para empresas, a mensagem é clara: entender mercados do Sul exige leitura cultural própria e pesquisa qualitativa ancorada no território.

É justamente nesse ponto que a pesquisa qualitativa se torna indispensável. Diferentemente de abordagens padronizadas, ela permite compreender sentidos, valores, práticas e racionalidades situadas, revelando como contextos locais reinterpretam, ressignificam ou rejeitam modelos importados. A pesquisa qualitativa não parte da suposição de universalidade, mas do reconhecimento da diversidade de experiências sociais, culturais e econômicas, tratando os sujeitos como produtores de sentido e não como meros desvios de um padrão hegemônico (Flick, 2009). No Sul Global, essa abordagem é crucial para evitar diagnósticos superficiais e decisões estratégicas equivocadas.


No campo do consumo, da inovação e do design de produtos e serviços, os efeitos dessa miopia são evidentes. Estratégias concebidas a partir de parâmetros do Norte, sem escuta local qualificada no Sul, frequentemente falham ao ignorar dinâmicas familiares, desigualdades estruturais, repertórios simbólicos e relações específicas com tecnologia, trabalho e consumo. A pesquisa qualitativa aplicada revela que práticas consideradas “informais”, “ineficientes” ou “atrasadas” muitas vezes respondem a racionalidades próprias, profundamente ajustadas às condições materiais e culturais do território. Tratar o Sul Global como mera adaptação do Norte é, na prática, pedir para errar.


No Sul Global, práticas de lazer e socialização moldam comportamentos de consumo que impactam moda, beleza, alimentação, bebidas, tecnologia e serviços. A pesquisa qualitativa transforma essas vivências culturais em insights estratégicos para decisões de negócio mais precisas e competitivas.
No Sul Global, práticas de lazer e socialização moldam comportamentos de consumo que impactam moda, beleza, alimentação, bebidas, tecnologia e serviços. A pesquisa qualitativa transforma essas vivências culturais em insights estratégicos para decisões de negócio mais precisas e competitivas.

Reconhecer o Sul Global como um espaço de produção de conhecimento, e não apenas de aplicação de modelos, é um passo estratégico e ético. Isso implica abandonar leituras hierarquizantes e investir em pesquisas sensíveis ao contexto, capazes de captar complexidades históricas, sociais e culturais. Para empresas, instituições e formuladores de políticas, compreender o Sul Global em seus próprios termos não é um gesto ideológico, mas uma condição concreta para a efetividade de produtos, serviços e estratégias. A pesquisa qualitativa, quando bem conduzida, não apenas descreve essas diferenças, ela as transforma em inteligência acionável.


Quer tomar decisões mais eficazes no Sul Global? Invista em pesquisa qualitativa sensível ao contexto, capaz de transformar cultura, comportamento e território em inteligência acionável para produtos, serviços e estratégias. Fale com a Tendere e construa decisões baseadas em conhecimento real — não em modelos importados.


Referências (ABNT)

FLICK, Uwe. Qualidade na pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2009.

NASCIMENTO, Emerson Oliveira do. Colonialidade, modernidade e decolonialidade: da naturalização da guerra à violência sistêmica. Intellèctus, v. 20, n. 1, p. 54–73, 2021.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade e modernidade/racionalidade. In: BONILLA, Heraclio (org.). Os conquistados. Bogotá: Tercer Mundo; FLACSO, 1992. p. 437–449.

COMMONS LIBRARY. What is the Global South? Londres: UK Parliament, 2023. Disponível em: https://commonslibrary.parliament.uk/what-is-the-global-south/. Acesso em: 15 jan. 2025.

JORNAL DA USP. Relações entre Estados do Sul Global são alternativa para ações tradicionais. Jornal da USP, São Paulo, 2022. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/relacoes-entre-estados-do-sul-global-sao-alternativa-para-acoes-tradicionais/. Acesso em: 15 jan. 2025.

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