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Notas sobre o camp: o que aprender e o que observar na última exposição de moda do Met

Vivian Berto de Castro


Camp é um conceito incerto e maleável. Tentar defini-lo é uma tarefa complexa. Este é um dos desafios explorados pela exposição Camp: Notes on Fashion, que abriu semana passada no Costume Institute Metropolitan Museum of Art. O nome da exposição é uma referência ao ensaio escrito por Susan Sontag em meados dos anos sessenta, intitulado Notes on Camp. Aliás, este ensaio, um experimento de reflexão para definir o camp em 54 “itens” elencados por Sontag, ao mesmo tempo em que concorda que ele não pode ter uma definição precisa, é a base e ponto de partida da exposição do Metropolitan.


Para Sontag, o camp é uma sensibilidade (e não uma “ideia” ou “conceito”). Toda sensibilidade é difícil de apreender, mas o camp é mais desafiador porque se trata de uma sensibilidade “não-natural”. Se trata do artifício, do exagero. Segundo Sontag, no item 8 do ensaio Notes on Camp, “Camp é uma visão do mundo em termos de estilo – mas um estilo peculiar. É a predileção pelo exagerado, por aquilo que está ‘fora’, por coisas que são o que não são.”


Na exposição, o exagero e o artifício foram explorados utilizando roupas de designers contemporâneos - e exemplos muitíssimos recentes. O vestido de borboletas de Jeremy Scott para a Moschino, o conjunto Venus de Thierry Mugler (usado este ano por Cardi B no Grammys) são alguns exemplos, assim como o vestido ultravolumoso de organza colorida de Tomo Koizumi.



Jeremy Scott para House of Moschino, primavera-verão 2018.

Vestido de Tomo Koizumi da primavera-verão 2019 - também faz parte da exposição do Met.

Muitas das celebridades que subiram as escadas rumo ao Met Gala, no dia 6 de maio, interpretaram sob a via de um exagero tremendo. O uso de plumas com muito volume e em todas as cores possíveis foi uma das versões mais utilizadas – e é algo que já era forte indicativo de tendências fazia certo tempo (não nos foi apresentado agora pelo Met Gala). Segundo a própria Sontag, “camp é uma mulher caminhando com um vestido feito com três milhões de penas” (Item 25 do ensaio). A interpretação dos trajes de penas, como look de Winnie Harlow ou mesmo o fabuloso vestido vermelho Thom Browne de Cardi B, é a mais direta para se trabalhar com o tema.


O camp permitiu que as entradas das celebridades no tapete vermelho fossem mais dramáticas do que nunca. O “teatral” trazido à tona por Susan Sontag também está nessas performances - a das trocas de roupa de Lady Gaga e a do séquito egípcio de Billy Porter. Para Sontag, “Perceber o Camp em objetos e pessoas é entender que Ser é Representar um papel. É a maior extensão, em termos de sensibilidade, da metáfora da vida como teatro” (item 10).



Cardi B no Met Gala, de Thom Browne.

Lady Gaga em uma de suas quatro performances no tapete do Met Gala. Veste Brandon Maxwell.

Billy Porter entrando no Met Gala de deus egípcio. O conjunto é da marca nova-iorquina The Blonds.

Winnie Harlow de Tommy Hilfiger: uma das inúmeras referências de plumas no tapete do Met Gala.

Para Sontag, ainda, o camp pode se dividir entre o deliberado - o que tem a intenção de ser camp - e o ingênuo. Este último, segundo a autora, seria o mais interessante, porque ele não tem a intenção de ser artifício - mas, no fim, é o que ele se torna. “No Camp ingênuo ou puro”, diz Sontag, “o elemento essencial é a seriedade, uma seriedade que falha. Evidentemente, nem toda seriedade que falha pode ser resgatada como Camp. Somente aquela que possui a mistura adequada de exagerado, de fantástico, de apaixonado e de ingênuo”. Neste quesito, o vestido “ganso” de Marjan Pejoski, maravilhosamente usado por Bjork na premiação do Oscar em 2001, não poderia ser melhor exemplo, e dificilmente faltaria na exposição.



Bjork no red carpet do Oscar, em 2001. O vestido "ganso" é de Marjan Pejoski.

Gênero e cultura queer


O camp está imbricado também com a cultura queer – na verdade, principalmente aos homens gays e às drag queens. O ensaio de Sontag, escrito nos anos sessenta, era contemporâneo à formação da cultura queer contemporânea, e a escritora destaca a presença do andrógeno - “a forma mais refinada de atração sexual [...] consiste em ir contra a corrente do próprio sexo”. (Item 9).


O visual “marinheiro gay” de Jean-Paul Gaultier não pôde faltar, com top curto listrado de branco e azul e a calça azul de paetês, além do caxangá (o chapéu branco de abas viradas, ou dixie cup em inglês). Figuram ainda, logo na entrada da exposição, leggings transparentes de Vivienne Westwood com “folha de Adão” sobre os genitais. A masculinidade exacerbada, que tem ares de homoerotismo, está também na peça de Walter van Beirendonck, um collant que mostra em trompe l'oeil (embora de forma bem kitsch, caricata, então não é exatamente o caso de “enganar” o olhar) as formas do corpo masculino, como peitoral e o pênis. Na exposição, este está ao lado de uma versão “feminina”, bem menos explícita, de Vivienne Westwood.



Walter Van Beirendonck outono-inverno 2016, à esquerda, e Vivienne Westwood outono-inverno 1990.

O "marinheiro" de Jean-Paul Gaultier ( à direita ) e os vestidos pop da Moschino, como mostrados na exposição..

As propostas de masculinidade são questionadas também quando se mostram obras de arte do acervo do Met, como por exemplo “Os músicos” (1595) de Caravaggio. Embora não necessariamente na época em que foram feitas, essas obras dialogam com o homoerotismo abordado na exposição.


Para Susan Sontag, “Camp é o triunfo do estilo epiceno”, ou a convertibilidade do masculino e o feminino (ou entre uma pessoa e um objeto). Roupas que brincam com a possibilidade de transgressão de gênero foram muito abordadas. Logo na entrada da exposição, o visitante tem contato com um look da primavera-verão 1998, alta-costura, de Jean-Paul Gaultier, que configura um vestido estilo “robe à l’anglaise” do século 18, só que negro, usado com camisa e gravata masculinas, além da abertura frontal da saia revelar calças de alfaiataria (ao invés do esperado saiote). Um painel intitulado Gender Without Genitais explora as intersecções entre trajes femininos (vestidos, babados) e masculinos (o costume), que vestem tanto manequins femininos quanto masculinos.



O "robe à l'anglaise" com detalhes do traje masculino de Gaultier foi desfilado na coleção de primavera-verão 1998 de alta-costura pelo modelo Tanel Bedrossiantz.

Trazer o camp para o debate da moda atual


Questionar e debater as inúmeras acepções sobre o camp em uma exposição de moda, aliada ao ensaio de Susan Sontag, mostra uma mudança na abordagem das exposições de moda do Met. A exposição do ano passado, sobre o mundo católico, e a do retrasado, sobre o manual e a máquina, tratavam de temáticas mais diretas. Trazer a iconografia católica para o universo da moda é um percurso criativo muito interessante, por vezes transgressor, mas relativamente óbvio à medida em que cruzes e imagens da Virgem Maria são transferidas para peças de vestuário e acessórios.


Em Camp: Notes on Fashion, proposta é diferente. Se o camp é um conceito elástico, de difícil definição, fazer um percurso na moda e na arte na exposição é criar formas de debate e, quem sabe, ajudar a (re)delinear o tema, principalmente para o século 21. Não poderia ter um fio condutor melhor que o complexo ensaio de Sontag. É como se o Met quisesse trazer o conceitual, a complexidade de novo para uma exposição de moda. O conceitual permite-nos trabalhar com temas que, se por um lado nos escorregam entre os dedos, por outro geram possibilidades inúmeras de reflexão. Mostra a moda sob seu aspecto mais intelectualizado. Fazer isto em tempos de passarelas muito comerciais, de desfiles que vão direto da semana de moda para a loja, é também rever as possibilidades da moda como debate e crítica.


É como se o Met quisesse trazer o conceitual, a complexidade de novo para uma exposição de moda.

Por outro lado, usar o camp também tem outras consequências. Perceber o camp exige sensibilidade, e esta não é facilmente adquirida. Não é para qualquer um – nem todos podem perceber o que é ou não é camp, ou entender as mensagens ou a ironia que o camp pode suscitar. Para alguns, pode ser só “esquisito”. Mas isso é só uma possibilidade de reflexão. É claro que o debate entre o “intelectual”, de um lado, e o “acessível”, de outro, não é tão simples e direto assim. Nem deve ser.



A exposição do Metropolitan, assim como as apresentações do Met Gala, é um respiro das últimas exposições de temática mais óbvia. Podemos até esperar que a moda se distancie da mesmice corrente nos últimos anos link post mais do mesmo, recuperando, de maneira ampla, a a complexidade e o seu aspecto conceitual - e interessante, instigante, desafiador.


Leia também:


O ensaio original de Susan Sontag, no Monoskoop: https://monoskop.org/images/5/59/Sontag_Susan_1964_Notes_on_Camp.pdf


Tradução do ensaio em português (do qual retiramos todas as citações de Sontag deste texto): https://perspectivasqueeremdebate.files.wordpress.com/2014/06/susan-sontag_notas-sobre-camp.pdf

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