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8 artistas que você talvez ainda não conheça. Mas deveria.

Helder Oliveira, Patricia Sant’Anna

e Vivian Berto


Você certamente já ouviu falar das obras e até mesmo das vidas de artistas como Michelangelo, Vincent Van Gogh ou Pablo Picasso.


Há um universo que legitima a arte nas grandes instituições – museus, galerias, bienais e feiras, além da crítica, da mídia especializada e do meio acadêmico. A história da arte, que deixa para a posteridade as obras e os artistas, precisa fazer um recorte de obras, artistas e movimentos. Até porque seria impossível estudar todos os artistas, de todos os períodos.


A história da arte, que deixa para a posteridade as obras e os artistas, precisa fazer um recorte de obras, artistas e movimentos.

Essa invisibilização de alguns pode acontecer por motivos sociais e políticos – a história da arte e as instituições valorizam artistas homens, brancos, de lugares específicos da Europa ou então dos EUA, dependendo da época em que viveram e produziram. Mas não só. Há inúmeros artistas nessas condições que acabaram sendo preteridos pela história da arte, pelos mais diversos motivos.


E, nesse recorte da história da arte, as obras e os artistas podem ser legitimados, esquecidos, recuperados... Você sabia que pouco se falava de Frida Kahlo até a década de 1980? A artista esteve, até então, à sombra do marido, o muralista Diego Rivera.


Foi só após uma exposição retrospectiva na Whitechapel Gallery, de Londres, em 1982 – na qual as pinturas de Frida dividiram o espaço com as fotografias de outra grande dama do modernismo no México, Tina Modotti – que a artista foi se tornando o ícone que conhecemos hoje. Ou seja, precisou de um empurrão de uma instituição consolidada, e na Europa.


Essa valorização recente da obra de Kahlo também foi parte de um movimento político feminista na história da arte, interessado em buscar artistas mulheres na história e ressignificar suas obras no presente, além de repensar a própria condição da história da arte e seus recortes.


Construir repertório consiste em sempre buscar o novo, o que não conhecemos, e é um trabalho incessante. E imensamente prazeroso! Se você já conhece obras de Michelangelo, Van Gogh e Picasso, ou então de Velázquez, David e Georgia O’Keefe, convidamos você a explorar e conhecer esses 8 artistas (homens e mulheres).


Construir repertório consiste em sempre buscar o novo, o que não conhecemos, e é um trabalho incessante. E imensamente prazeroso!

Se você quer formar e lapidar cada vez mais seu repertório, recomendamos o curso Como Apreciar Arte, com Helder Oliveira, na programação da FLUXUS a partir da próxima semana (06/02). Afinal, repertório é algo que nunca se deixa de construir!


Que outros artistas você adicionaria à nossa lista? Mande nos comentários!


1. Sofonisba Anguissola (c.1532-1625)

ANGUISSOLA, Sofonisba. Bernardino Campi pintando Sofonisba Anguissola. c. 1559 Óleo sobre tela (OST), 111 x 110 cm, Pinacoteca Nazionale, Siena, Itália.

Pintora do maneirismo, em pelos séculos XVI e XVII, Sofonisba Anguissola era filha de um aristocrata cosmopolita que fazia questão de que suas filhas tivessem uma formação artística – por isso, ela começou a estudar cedo em ateliês (Anguissola era uma de seis irmãs pintoras). Ela foi contratada pela corte de Felipe II, em Madri, para fazer retratos e ensinar pintura para a rainha, Isabel de Valois. As mulheres retratistas de corte não eram tão raras, principalmente por causa do imperativo moral que criou essa demanda (com quem as mulheres nobres passariam seu tempo durante a feitura de seus retratos).


Muitas das artistas dos movimentos maneirista e barroco foram apagadas pela história – ficaram apenas documentos (encomendas), e pouco se sabe ou mesmo se encontram suas obras, isso porque não raro seus quadros eram atribuídos a homens, a seus mestres, ao pai ou a colegas próximos. A própria Anguissola já teve uma obra atribuída erroneamente a Ticiano, por exemplo.


A pintora, além dos retratos da corte, se tornaria famosa por seus inúmeros autorretratos. Na homenagem nada modesta que ela faz a seu mestre, Bernardino Campi, ela o retrata pintando a ela mesma – o que vemos na pintura é Campi olhando para Anguissola, para depois voltar para seu trabalho.


2. Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun (1755-1842)


Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun. Maria Antonieta com vestido de musselina branca e chapéu de palha. 1783. National Gallery of Art, Washington D.C., EUA.

Conhecemos muitas imagens de Maria Antonieta, mas o que muitos não sabem é que alguns dos retratos da rainha da França pré-revolucionária foram feitos por uma mulher. Madame Vigée-Le Brun conquistou a simpatia da rainha quando ainda era muito jovem, lhe valendo um dos poucos lugares reservados para mulheres na Academia Francesa.


Um dos retratos da delfina da França pintado por Madame Vigée-Le Brun foi extremamente polêmico: datado de 1783, retratava Maria Antonieta no novo “estilo” que adotava à época. Abandonando os amplos paniers laterais e os exageros do rococó, Maria Antonieta admitiu um vestuário mais simples, inspirada em ideias neoclássicos, o que mais havia de “moderno” no final do século XVIII. O quadro da rainha com vestido de musselina e chapéu de palha foi tirado do Salon no qual foi exposto, tal era o escândalo.


Na última quarta-feira (31), um quadro de Vigée-Le Brun foi vendido no leilão da Sotheby’s, em Nova York, por mais de 7 milhões de dólares – um recorde para uma mulher artista anterior ao modernismo. Portrait of Muhammad Dervish Khan, Full-Length, Holding His Sword in a Landscape data de 1788. Essa venda mostra um novo olhar do mundo (e do mercado) da arte para com as artistas.


3. James Whistler (1834-1903)


James Abbott McNeill Whistler. Noturno em preto e dourado – foguete caindo. 1875. Óleo sobre tela (OST), 45cm x 60cm, Detroit Institute of Arts, Detroit, EUA.

Whistler era um homem cosmopolita que dialogou com vários pintores e movimentos e, por isso, considerado à frente de seu tempo. Nascido em Massachussets (EUA), viveu parte da infância em São Petesburgo (Rússia), chegou a estudar e pintar em Paris (França), mas se estabeleceu mesmo em Londres (Inglaterra). Nestas últimas cidades, teve contato tanto com os pre-Rafaelitas e simbolistas quanto com os mesmos ateliês que formariam os impressionistas anos depois. Whistler participou também do Movimento Estético – que defendia a arte pela arte, alastrada para várias esferas da vida – e, além de pintura, criou estampas para tecidos.


As obras mais conhecidas de Whistler são, no entanto, as paisagens. Noturno em preto e dourado – foguete caindo (1875) é umas dessas obras, destacadas pela crítica por ser “imaginativa” – o artista não reproduzia a natureza, mas a re-imaginava. Isso faz muitos críticos o colocarem como um dos precursores da arte moderna, antes mesmo do movimento impressionista.


4. Berthe Morisot (1841-1895)


Berthe Morisot. A Ama-de-Leite e Julie. 1879. Óleo sobre tela (OST), 50cm x 61cm.

Uma das figuras menos conhecidas do impressionismo, Morisot era tanto artista quanto boêmia, e fazia parte do círculo de Claude Monet, Edgar Degas e Pierre-Auguste Renoir, dentre outros grandes pintores. Na verdade, ela era cunhada de Édouard Manet, casada com seu irmão, o também artista Eugène (que se dedicou mais a apoiar a carreira da esposa do que a pintar). Ela conheceu quem seria seu futuro cunhado após posar para a famosa obra O Balcão (1868) e, mais tarde, também posou para Berthe Morisot com Buquê de Violetas (1872).


Morisot retratava, principalmente, cenas da vida burguesa, especialmente mulheres e crianças em ambientes domésticos ou relaxando ao ar livre – não muito diferente dos temas dos outros pintores impressionistas. Mas o destaque de Morisot vai para sua representação das mulheres trabalhadoras, como em A Ama-de-Leite e Julie (1879), na qual sentam-se sobre a grama, numa atmosfera etérea, a empregada amamentando a filha pequena de Berthe.


5. Edmonia Lewis (1844-1907)



Mary Edmonia Lewis. Forever Free. 1867. Howard University Gallery of Art, Washington D.C., EUA.

Edmonia Lewis é uma figura atípica de seu tempo – ao mesmo tempo negra e indígena, estudou artes na Oberlin College, em Ohio, graças ao seu interesse artístico e autodidatismo. Estabeleceu uma carreira em Boston esculpindo retratos de abolicionistas norte-americanos. Com o apoio de uma rede de mulheres escultoras norte-americanas, Lewis mudou-se para Roma em 1865, e passou a vida entre a Itália, Inglalerra e Estados Unidos. Suas esculturas neoclássicas fizeram sucesso entre inúmeros patronos, embora, assim como as outras mulheres escultoras do século 19, o percurso tenha sido invisibilizado pela história da arte.


Além dos temas ligados à mitologia greco-romana, Lewis também fez esculturas de afroamericanos e indígenas, sempre no estilo neoclássico. Forever Free (1867) foi uma obra que Lewis criou para comemorar proclamada Emancipação de janeiro de 1863.


No século 19, as mulheres de classes abastadas puderam entrar cada vez mais nas academias de artes, embora ainda com muitíssimas restrições – elas não podiam participar de estudos de modelo nu, por exemplo. Na pintura, a incidência de artistas era maior que na pesada escultura. Mas não podemos deixar de lembrar que existiram excelentes escultoras na história, e elas vão além de Camille Claudel, a artista que foi aluna e amante de Rodin, mais conhecida depois do belíssimo filme biográfico de 1988.


6. George Bellows (1882-1925)

George Bellows. Stag at Sharkey’s. 1908. Óleo sobre tela (OST), 92cm x 122,6cm, Cleveland Museum of Art, Cleveland, EUA.

É pouco comum tratar de arte estadunidense anterior ao movimento de Action Painting. Isso porque o movimento de Pollock e seus amigos, era considerado, dentro da história da arte, como o ‘primeiro grande movimento norte-americano’ (afinal, esse movimento foi o precursor da mudança de eixo do mercado de artes da Europa para a América). Nesse processo, no entanto, perde-se obras como as vigorosas pinturas de George Bellows, um pintor do grupo de “realistas” do país. Como outros artistas desse movimento, Bellows tinha interesse em registrar o cotidiano de sua cidade, Nova York. Bares, vida noturna, becos da cidade grande eram temas preferidos.


Mas esse artista se tornaria conhecido por um tema específico: os ringues de boxe. Bellows era, ele próprio, um atleta – jogava basquete, e chegou a ser convocado por um time de baseball profissional, oferta que recusou para se dedicar exclusivamente à arte. Uma de suas obras é Stag at Sharkey’s, que mostra uma luta vigorosa de dois boxeadores diante de uma plateia aturdida.


7. Alberto Burri (1915-1995)


Alberto Burri. Sacco e rosso. 1954. Acrílica e serrapilheira sobre tela, 149,9cm x 129,5cm. Tate Modern, Londres, Inglaterra.

Burri é, como Whistler, um artista que não se encaixa em movimentos específicos, mas que, sendo avant la lettre, influenciou fortemente outros artistas e movimentos depois dele. As principais obras de Burri, criadas ainda no início da década de 1950, são composições abstratas com os mais diversos materiais, principalmente os baratos e industriais: sacos de juta, plástico derretido, madeira queimada, placas de metal, entre outros.


São obras extremamente táteis, nas quais o desgaste, o roído, e o sujo se mostra na tela – como em Sacco e rosso, de aproximadamente 1959, na qual esses elementos se unem à intensidade do vermelho. E isso num momento em que o minimalismo se construía nas obras abstratas e “limpas”, especialmente nos Estados Unidos do pós-guerra. Ou nas obras do expressionismo abstrato, que colocam a arte como totalmente separada do mundo ao seu redor.


Burri pode ser visto como um precursor de um importante movimento da arte italiana, a arte povera (ou arte “pobre”). Também seus quadros trazem questões sobre medium e superfície da obra de arte, que seriam mais aprofundadas só nos anos 1960, com as assemblages. Para Burri, suas obras não poderiam ser medidas em palavras - é o material que traz a mensagem.


8. Richard Diebenkorn (1922-1993)


Richard Diebenkorn. Ocean Park N. 29. 1970. Óleo sobre tela (OST), 255cm x 277cm. Dallas Museum of Art, Dallas, EUA.

Diebenkorn, que trabalhou a maior parte da vida na Califórnia (Berkeley e Santa Monica), está entre os artistas norte-americanos pouco populares fora dos Estados Unidos. Sua obra de divide entre o figurativo (até os anos 1960 – e das quais são mais conhecidas as pinturas de objetos e naturezas-mortas) e o abstrato. Na verdade, a abstração de Diebenkorn foi se desenvolvendo a partir das composições de pinturas de paisagem. O artista trabalhou como cartógrafo para o exército durante a Segunda Guerra, fato que muitas vezes é usado para justificar seu olhar para paisagens de maneira “achatada”, um tanto geométrica. A série Ocean Park tem várias das consideradas obras-primas do artista, foi pintada em Santa Monica na década de 1970.

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