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16 mulheres incríveis da moda

Patricia Sant'Anna


Como podemos pensar a presença das mulheres no universo da moda? Em boa parte da história da moda, as mãos, o trabalho, as vozes e os corpos das mulheres estiveram ali. E pode ter sido tanto em primeiro plano quanto na “porta dos fundos”.


As mulheres foram as consumidoras principais da moda (principalmente a partir do século XIX), com fortunas a gastar. Pense ou pesquisa sobre mulheres como a rainha Maria Antonieta, ou Sissi, imperatriz da Áustria, ou Pauline von Metternich... todas foram mulheres que revolucionaram a moda de seus tempos através das imensas fortunas que gastavam e dos vestidos que compraram.


Mas também as mulheres são as trabalhadoras principais da moda: costureiras e outras profissionais são a parte principal da indústria, anônimas sem as quais a moda não poderia existir.


As mãos femininas sempre foram trabalho no universo têxtil e do vestuário. No entanto, possuir e gerir sua própria casa de costura e se tornar criadora de moda foram direitos conquistados com muita luta! As primeiras guildas femininas de costura surgiram no século XVI e foram violentamente suprimidas, pelo menos até um decreto de Luis XIV que declarava que mulheres poderiam sim ser proprietárias de negócios de costura, desde que com certas restrições (como não fazer roupas masculinas nem vestidos muito complexos).


E aqui começa nossa contagem de dezesseis das muitas mulheres incríveis da moda: com uma das primeiras costureiras de destaque no universo de Versalhes, sim, estamos falando de Rose Bertin.


1. Marie-Jeanne Rose Bertin (1747-1813)


Bertin foi costureira na corte de Luis XVI, o último rei da França – mais especificamente, ganhou as graças da rainha, Maria Antonieta, e se tornou uma das responsáveis pelo seu ostensivo guarda-roupa. Proprietária de sua casa de costura, assumiu a posição de administradora e não mais colocava “a mão na massa”, mas sim usava suas habilidades de vendas para conquistar mais e mais clientes. Ela foi pioneira nessa abordagem e de uma profissão que ficou mais tarde conhecida como “modista”: mulheres elegantes e cheias de lábia, que conheciam muito bem suas clientes. Diz-se que, quando uma nova cliente chegava ao ateliê, Bertin mandava a uma de suas funcionárias: “Vá e mostre à madame as últimas criações que fizemos para Nossa Majestade”!


2. Amelia Bloomer (1818-1894)


Amélia Bloomer foi uma feminista importante do século XIX, fundadora do primeiro jornal feminista editado e escrito por mulheres, o The Lilly. Bloomer se tornaria mais conhecida posteriormente por ser responsável pela revolução na nossa forma de vestir. As roupas femininas da aristocracia e classes médias eram extremamente restritivas. Na época, as propostas de Bloomer foram consideradas, por seus críticos, absurdas e imorais. Ela criou calças femininas (como as que ela usa na imagem acima) e não usava espartilho. Sua criação só foi usada por ela mesma e feministas de seu círculo, que chegaram a ser fisicamente agredidas por causa da vestimenta. A revolução de Bloomer foi aos poucos absorvida com mais força no século XX, quando as mulheres finalmente “se libertam” do espartilho, processo que não foi da noite para o dia e sim resultado de muito tempo. E de mulheres radicais como Bloomer que propunham transformar a situação das mulheres – no vestuário e na vida.



3. Suzanne Leglen (1899-1938)


O advento dos esportes também foi responsável pelas mudanças no vestuário feminino e abandono do espartilho no século XX, e aí entra Suzanne Leglen. La Divine, como foi conhecida, foi a primeira grande tenista da história e que realmente abriu caminho para o destaque do tênis profissional feminino. Ganhou seis vezes o Wimbledon (solo ou em duplas) e era admirada por sua força e rapidez. Leglen foi inovadora na maneira de pensar a moda na quadra: abandonou o costume tradicional das tenistas do início do século XX, quer era usar espartilho, anáguas e saias longas, botinhas com salto e chapéu. Ela não usava espartilho para jogar, adotou a saia no meio da canela, usava calçados baixos e masculinos, amarrava um lenço na cabeça de maneira a não deixar o cabelo ou o suor cair em seus olhos e cardigans masculinos.


4. Coco Chanel (1883-1971)


Chanel dispensa apresentações – é sem dúvida uma das figuras mais conhecidas da moda, e sua biografia escrita e reescrita em livros de ficção e não-ficção, no cinema, no teatro... nos preenche com um imaginário rico sobre essa personagem histórica da moda. Parte do nome Chanel também se deve também ao destaque que a Maison fundada por ela tem ainda hoje, e que ainda se baseia na imagem de sua criadora: uma mulher moderna, independente, elegante ao molde francês. Chanel era uma menina órfã com um passado um tanto nebuloso – ela costumava inventar histórias sobre ele – que abriu sua chapelaria em Pais em 1909. A partir de 1916 ganhou fama pelos conjuntos de saia e blusa simples e práticos, que se tornaram ainda mais revolucionários no final da década. O uso do preto (até então reservado aos homens ou ao luto), de materiais inusitados como o jérsei, roupas confortáveis, sapatos simplificados, bijuterias misturadas às joias... até hoje sentimos o resultado da revolução Chanel na moda. Já o famoso tailleur com vivos de cores contrastantes surgiria só na década de 1950. Depois da guerra, a estilista ficou inconformada com a “volta” da cintura marcada e decidiu que precisava revolucionar de novo.


5. Elsa Schiaparelli (1890-1973)


A estilista italiana era uma socialite de história complicada, como uma mãe abusiva e um casamento arruinado. A moda tornou possível ela sustentar os filhos e se expressar artisticamente. Ela lançou sua própria Maison e se tornou uma das mentes mais inventivas da moda. Frequentava o efervescente círculo de artistas dos anos 1930, em especial os artistas surrealistas, àquele momento, um dos movimentos de maior sucesso na Europa. Foi a partir dos princípios do Surrealismo que Schiaparelli se inspirou para fazer suas criações como estilista – e, ousamos acrescentar, ela própria é considerada uma artista do movimento, tanto pelas suas criações (como o chapéu-scarpin) como por suas parcerias com Jean Cocteau, Salvador Dali, Man Ray, entre outros (como o famoso vestido-lagosta, um lindo vestido branco com pinturas das icônicas lagostas de Salvador Dalí). Schiaparelli foi ainda responsável por pensarmos criar o método de criar coleções de moda a partir de temas, exatamente como é feito atualmente, antes dela os criadores faziam vestidos, depois passaram a pensar coleções com temáticas desenvolvidas plasticamente em cores, texturas, caimento, estampas etc. Schiap trouxe mais criatividade e diversão à moda.



6. Mary Quant (1934-)


A estilista britânica participou do furacão da moda jovem britânica dos anos 1960. Lançou sua primeira loja em 1955 e fez sucesso pouco tempo depois com seu estilo irreverente, divertido, único, ideal para a juventude baby boomer. Era a primeira vez que a moda era tão ligada à expressão individual. Em meio a suas criações, a que ficaria na lembrança de todos é a minissaia. Embora haja discussões sobre quem inventou a peça – há quem diga que foi o francês André Courrèges – certamente o espírito jovem da britânica foi que emplacou a ousada peça na época, junto com outras peças tão arrojadas quanto, como a hot pant. Em tempo: o Victoria & Albert Museum, em Londres, está com uma grande retrospectiva da obra de Quant em cartaz, que vai até fevereiro de 2020.



7. Zuzu Angel (1921-1976)


Uma das principais figuras de resistência da ditadura militar (1964-1985), Zuzu Angel também é uma de nossas maiores estilistas. Sua carreira começou na década de 1950 e ganhou notoriedade nacional e internacional. Em 1971, seu filho, Stuart, foi capturado pela polícia e desapareceu – depoimentos depois revelaram que ele foi brutalmente torturado e assassinado no mesmo dia. Zuzu partiu em busca de informações sobre o filho e o direito de sepultá-lo. Sem resposta, conseguiu realizar um desfile-protesto no mesmo ano no consulado brasileiro em Nova York. Bordados irônicos que traziam a temática militar – tanques de guerra, solados, além de pássaros engaiolados e outros temas – fizeram parte da coleção mais importante da moda brasileira. Zuzu morreu em 1976 em um suspeito “acidente” de carro. Em 1998, a Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu a ação criminosa da ditadura no assassinato de Angel. Sua outra filha, a jornalista Hildegard, ajuda a manter a memória da mãe, do irmão e de outras vítimas da ditadura militar. Para a moda Zuzu deixou diversos legados, primeiro, assumiu uma brasilidade radical, com estampas, materiais e tema diretamente ligados à cor local. Segundo, como citado acima, a moda foi usada por ela como plataforma de expressão de sua dor, mas também como espaço de denúncia de uma situação de opressão violenta que passávamos no Brasil àquela época, e terceiro, ela foi uma das primeiras marcas brasileiras de moda a exportar sistematicamente para os EUA. Zuzu Angel é um exemplo de como moda brasileira pode ser criativa, politizada, local e global sendo um negócio de sucesso.



8. Diane von Furstenberg (1946-)


Diane von Furstenberg abriu sua marca logo após se casar com um nobre da casa alemã Fürstenberg, Egon, eles se mudarem para os Estados Unidos. Este casamento garantiu que a moda (no caso Diana Vreeland) abrisse suas portas à ela, mas foi seu mérito ter mantido elas abertas. Em 1972, DVF lançou a peça pela qual se tornaria famosa, o icônico wrap dress (mais conhecido, em português, como vestido envelope). O sucesso comercial do vestido elegante e prático (sempre de jérsei e estampado) foi imenso, tanto que catapultou a marca e vendeu milhões de modelos. Neles as mulheres poderiam ser femininas, elegantes, práticas e poderosas. Esse modelo, feito até hoje pela sua marca, a tornou a mulher muito poderosa na moda. Sua marca teve percalços ao longo de sua história desde a década de 1970, mas a partir dos anos noventa ela consegue se recolocar no mercado, sendo hoje, uma marca forte, atuante e referencial em negócios da moda. Membro do CFDA (Council of Fashion Designers of America), onde busca proteger direitos autorais de criadores e marcas de moda nos EUA, tem papel importante nos debates de Fashion Law. Diane von Furstenberg lançou o prêmio DVF em 2010 para jovens estilistas e se mantém ativa tanto como criadora quanto como articuladora da moda nos Estados Unidos.


9. Rei Kawakubo (1942-)


A designer japonesa Rei Kawakubo é a criadora da marca Comme des Garçons, e definitivamente é outra revolucionária da moda. No final dos anos 1980, a moda de Paris entrou em contato com os estilistas japoneses, que se caracterizavam por ser uma nova geração de criadores, que olhavam para a moda ocidental e a reinventava através de desconstrução de suas formas tradicionais (eram seus parceiros nessa empreitada Yohji Yamamoto e Issey Miyake, por exemplo). Esses designers trouxeram propostas inovadoras de modelagem, o uso apaixonado da cor preta, o aspecto puído das roupas, a mistura de materiais inusitados, entre outras transformações que marcaram profundamente a moda nos anos 80 e 90. Kawakubo faz parte desse movimento e sempre traz, em suas coleções, experimentações sobre o corpo. Talvez um dos maiores exemplos seja a coleção primavera-verão 1997 “Body Meets Dress, Dress Meets Body”, que resultou em uma colaboração com o balé de Merce Cunningham, um grande performer da arte contemporânea. Nessa coleção os corpos são alterados plasticamente de maneira radical, de maneira a nos trazer um mal estar, um não-entendimento imediato sobre a forma corporal... enfim, te faz pensar. Enquanto negócios, Rei Kawakubo construiu um conglomerado inovador, que preza pela criatividade tanto de suas roupas quanto das lojas, organização e negócios. Recentemente, em 2017, Kawakubo foi tema da exposição anual de moda do Metropolitan Museum of Art em 2017, o que só prova sua imensa contribuição para a moda no mundo todo.



10. Vivienne Westwood (1941-)


É a mãe do punk – e muito mais. Westwood abriu sua boutique, a Sex, em 1971 em Londres, logo depois do divórcio do primeiro marido. Casou-se com seu então sócio Malcolm McLaren, que seria agente dos Sex Pistols, e estava no furor da revolta punk britânica. No final dos anos 1980, começou a ganhar o mundo da alta moda, e fez coleções inspiradas em referências rococó, dando leveza, diversão, refinamento, ao mesmo tempo que ultra sexy (nunca esqueceu sua sex shop) misturados a diversos elementos da cultura britânica... só que em Paris. Sua modelagem criativa e poderosa tornou-a uma grande criadora, superando o rótulo de moda jovem, barata e fácil. Porém, sua verve revolucionária continuou, o que levou Westwood a se reinventar: atualmente sua marca preza pela sustentabilidade social e ambiental. Faz campanhas frequentes sobre esses assuntos, e exige que seus fornecedores sejam certificados. “Compre menos” é agora o mote da rainha do punk.


11. Miuccia Prada, PhD (1949-)


Responsável por transformar a tradicional Prada na marca inconformista que conhecemos, Miuccia Prada nem sempre quis herdar os negócios do avô, Mario Prada. Doutora em Ciências Políticas, foi militante comunista na juventude e só passou a trabalhar na grife nos anos 1980. Lançou sua primeira coleção de prêt-à-porter em 1988. Miuccia sempre foi contra a elitização do que é belo – por isso suas coleções enaltecem o “feio”, ou melhor, mostram novas propostas de elegância. Não é à toa que o Metropolitan Museum já fez uma megaexposição em 2012 sobre suas criações. Aliás, a curadoria criou um discurso expográfico como se a exposição fosse uma conversa entre Miuccia Prada e Elsa Schiaparelli! Hoje a Prada está se recuperando de três anos em que, financeiramente, não esteve tão bem. A criatividade de Miuccia Prada agora foi focada na organização, que reuniu sob o mesmo crivo todo o processo, da criação à distribuição e comunicação, e isso tanto para a Prada quanto para a MiuMiu. Independente da situação nos negócios, não dá para negar que o legado de Miuccia Prada é importantíssimo para o mundo da moda.


12. Stella McCartney (1971-)


McCartney se tornou um dos pilares da moda sustentável. Sua marca foi lançada em 1995, e em 2001 partiu para uma joint venture no antigo conglomerado de luxo PPR, atual Kering, o que possibilitou a expansão e internacionalização, além do lançamento de linhas de produtos como perfume, skincare, lingerie etc. McCartney também já fez colaborações com marcas grandes como a Adidas. Sua abordagem vegana e sustentável da moda, demonstrou a viabilidade de um negócio de moda que preze pela sustentabilidade. As soluções dos modelos de negócios de McCartney podem ser um caminho interessante para pensar moda ética num contexto globalizado. Hoje, sua marca já não está mais no grupo Kering, e anda com suas próprias pernas. A designer ainda apoia a Ellen McCarthur Foundation em diretrizes para um futuro mais sustentável.


13. Gisele Bundchen (1980-)


Não podemos ignorar a importância das modelos para o sistema da moda. Gisele Bundchen ganha lugar de destaque: a brasileira é ainda hoje reconhecida como uma das maiores modelos do mundo. Ajudou a levar um dos padrões de beleza brasileiros para o universo das grandes capitais da moda: corpo mais musculoso, bronzeado, cabelos ondulados, beleza “natural”. Num mundo de esquálidas meninas francesas ou britânicas, isso foi muito! Hoje, Gisele assumiu um posicionamento bastante ligado à sustentabilidade em vários aspectos da sua vida. E usa sua fama para dar voz a questões pertinentes para quem quer desenvolver uma moda e uma vida mais sustentável. Sua iniciativa, por exemplo, de só usar vestidos sustentáveis nos red carpets impacta o mundo da alta moda, fazendo-os repensar materiais e formas de construção das soluções criativas, abrindo mão de formatos tradicionais de solução para criar Haute Couture.


14. Ashley Graham (1987-)


Ashley Graham estourou no universo da moda numa época em que modelos plus size não eram nada bem vistas. Em 2015, ela apareceu na capa conhecida como “bikini covers” da Sports Illustrated, que, basicamente, mostra mulheres de biquíni. Ela, de certa maneira, inicia uma revolução nos padrões de beleza, pois, desde então, poucas são as marcas que não trabalham com modelos plus size em desfiles e/ou campanhas! A cada nova semana de moda de Nova Iorque, os números de modelos plus size só aumentam. Não podemos negar a importância do caminho aberto por Graham.


15. Winnie Harlow (1994-)


Outra quebradora de padrões, Chantelle Brown-Young, conhecida como Winnie Harlow, definitivamente abriu espaço para vários dos padrões de beleza “pouco convencionais” que vemos hoje nas imagens de moda. A modelo negra possui vitiligo e tornou esta uma de suas marcas registradas, que ela exibe com orgulho e certamente a ajudou a se diferenciar no mar de modelos que seguiam um mesmo padrão. Harlow, que foi descoberta no programa America’s Next Top Model, também divulga mensagens de body positivity, autoaceitação e diversidade.


16. Iris Apfel (1921-)


Não poderia estar faltando na lista! A senhora de quase 98 anos é uma das figuras mais interessantes da moda atual. Sua vida profissional começou com a empresa têxtil Old World Weavers, que ela tocou com o marido, Carl, de 1950 a 1992. Fato curioso: a empresa se tornou especializada em réplicas de tecidos de decoração dos séculos XVII a XIX (já teve até a Casa Branca como cliente), o que talvez explique a paixão de Apfel pela tradição e seu amplo repertório. Mas o incrível mesmo nessa história é a autoreinvenção: em 2011, aos 90 anos, ela desenvolveu uma coleção limitada para a MAC Cosmetics – algo que ela própria considera como seu “primeiro grande trabalho na moda”. A partir daí, colaborações com marcas de beleza, lançamento de linhas de joias, documentário, livros, exposições... tudo em torno de sua figura maximalista. Apfel inspira: ensina que a velhice pode ser diferente dos estereótipos e sua vida pode ser bem menos previsível do que você imagina.


Essas mulheres são só algumas de um mar de profissionais que criativamente inventam e reinventam a moda todo santo dia, seja nas lojas, nas oficinas ou escritórios.


Você sentiu falta de alguém nessa lista? Quem? Conte-me mais sobre essa pessoa.

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