Sim, há um lado perverso no empreendedorismo feminino

Somos absolutamente a favor do empreendedorismo feminino (e feminista), mas cada vez mais surgem “aceleradoras” que não aceleram negócios, consultoras que nunca abriram um CNPJ e até esquemas de pirâmide têm sido cada vez mais comuns. Veja o que identificar como boas práticas.



Foto por C Morillo no Unsplash

Victor Barboza, Vivian Berto

e Patricia Sant’Anna

O florescer relativamente recente do empreendedorismo feminino, embora extremamente positivo, tem mostrado algumas manifestações bastante perversas. Se trata dos falsos grupos de apoio, cursos, consultorias e aceleradoras de novas empresas que, além de não auxiliar de verdade as empreendedoras, ainda tiram vantagem. O curioso é que tais práticas são feitas tanto por homens quanto por mulheres – para cima das mulheres.

Temos identificado tal comportamento com tanta frequência que tem nos deixado cada vez mais preocupados. Porque, afinal, tem muita gente comprando ‘gato por lebre’.

Talvez você já tenha visto algo semelhante ao que estamos falando: cursos que mais parecem sessões de auto-ajuda (não que haja algo intrinsecamente errado com auto-ajuda, mas uma coisa é uma coisa...), aceleradoras e coaches aplicados por pessoas que mal ou nunca coordenaram seus próprios negócios (o famoso empreendedorismo de palco – o/a palestrante que fala muito sobre empreender, mas essa pessoa mesmo, nunca empreendeu) e até mesmo, pasme, esquemas de pirâmides financeiras para cima de mulheres que desejam empreender!

Mulheres querendo empreender passam por momentos de decisão que as fragilizam, muitas vezes elas estão querendo se encontrar, achar apoio para tirar sonhos do papel... e bem neste momento, vemos modelos de pirâmides super-estruturados acontecendo somente entre mulheres, totalmente encoberto/disfarçado pelo discurso do empreendedorismo.

Não é de se estranhar que isso tenha surgido acompanhando o (positivíssimo) boom do empreendedorismo das mulheres. Em 2018, elas representavam 46% dos empreendedores iniciais, embora ainda fossem somente 34% dos donos de negócios (aqueles empreendedores que se consolidaram), segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), em relatório do Sebrae.

As mulheres também são muito diversas em relação a quais são seus objetivos e ambições com o negócio, se as compararmos aos homens. Existe muito, ainda, empreendedorismo por necessidade (aquele em que a mulher abre um negócio para se sustentar – e não raro sustentar sua família toda), este que corresponde a 44% das empreendedoras no Brasil, segundo a mesma pesquisa citada. Mas é lógico que existem mulheres com muitas motivações outras, como por exemplo empreender porque querem montar o próximo unicórnio (unicórnio é uma startup que alcança uma avaliação de preço de mercado maior que 1 bilhão de dólares. Este termo foi cunhado em por Aileen Lee). Outras investem seu tempo em um empreendedorismo social ou com propósitos sustentáveis. Há ainda as que desejam gerir uma empresa que as possibilite passar mais tempo fazendo o que mais gostam (unir prazer com trabalho) e outras sonham em ter um exercício profissional em que tenham flexibilidade de horário (para cuidar de pessoas da família como filhos, netos, pais, avós etc.).

Porém, o boom do empreendedorismo feminino criou também alguns ruídos que precisam ser desmistificados. Hoje, vemos uma certa imposição de que mulheres feministas, autônomas e independentes são necessariamente empreendedoras. É verdade que qualquer uma pode ser uma empreendedora, mas nem todas querem ou devem ser. Esse discurso de que todas precisam empreender cria ainda mais espaço para práticas escusas, procurando lucrar em cima de quem está tentando fazer as coisas corretamente. Por isso, se você é uma mulher empreendedora (ou que deseja começar a empreender), fique muito atenta.

Por que é uma questão específica das mulheres

Quando falamos em esquemas escusos dentro do universo do empreendedorismo, não estamos falando de nenhuma novidade, muito menos de um problema específico das mulheres. O aumento do interesse por empreender, a precarização do mercado de trabalho e a diminuição das barreiras de entrada graças ao digital – deixa muito mais simples e barato montar um negócio – contribuem tanto para o saldo positivo quanto negativo do universo do empreendedorismo.

Por que estamos falando, então, especificamente de mulheres?

Quando mulheres empreendem, de maneira geral, elas têm comportamentos diferentes dos homens na mesma atividade. A própria construção histórica do que é ser mulher, que influi diretamente em sua educação, faz com que elas tenham outras necessidades e inseguranças. Por exemplo, a chamada “síndrome do impostor” (veja no vídeo abaixo) é muito comum entre mulheres. A falta de auto-confiança é um dos problemas mais enfrentados por elas para enfrentar o empreender.




Por isso, é relativamente comum os grupos de mulheres empreendedoras parecerem grupos de auto-ajuda. Isso porque elas tendem a buscar esse tipo de recepção, tendem a buscar acolhimento, principalmente quando o empreender é bastante atrelado à vida pessoal – realizar um sonho, cumprir um grande propósito de vida, ganhar independência financeira e emocional, além de vários outros fatores. Este acolhimento, quando bem-feito, auxilia na auto-estima e confiança, essenciais para qualquer empreendedora. Mulheres precisam desses processos de ajuda na construção da autoconfiança, já que isso que é minado ao longo de sua formação e educação. Faz parte de uma construção de empoderamento feminino, que é absolutamente necessário, para se “aguentar o tranco” de ter um negócio. Por isso, os grupos se tornam bastante relevantes.

Os homens são normalmente formados para ter uma auto-imagem muito forte e positiva de si próprios: quando conquistam algo, tendem a entender que agiam sozinhos, que a construção do sucesso foi feita por eles (apenas). Já as mulheres tendem a encontrar sempre o mérito em quem está em volta. Quase sempre se sentem obrigadas a agradecer quem as ajudou, por menor que seja esta ajuda. De certa forma, ela divide o mérito, ou mesmo, passa esse para quem está em volta – e isso pode fragiliza-las.

Trata-se de uma questão delicada e complexa. Muitas mulheres querem e precisam dessas ferramentas que as ajudam na construção da autoconfiança, do seu próprio empoderamento, e, precisam de grupos, coaches, consultora(e)s etc. para ir sedimentando que seu sonho de empreender realmente se realize. Porém, uma série de pessoas, algumas até bem intencionadas, identificaram nas empreendedoras presas fáceis para “vender ajudas” que não ajudam, apoios que só atrapalham, que fomentam falsas práticas de sororidade. O mais interessante é que é difícil identificar o que vale o que não vale a pena, porque se o apoio é algo necessário para o empreendedorismo feminino, até onde essas práticas são necessárias e até que ponto pode se tornar um problema, a ponto de inviabilizar os negócios, objetivos e projetos de vida dessas mulheres?

As mulheres precisam de autoconfiança. Mas também precisam de instrumentos de gestão financeira, conhecimento do negócio em profundidade, gestão de tempo com planejamento e visão estratégica de seu negócio, estabelecer networking, saber abordar para proporcionar abordagens comerciais efetivas, dentre outros.

Bons cases

Podemos ver que há bons cases de ajuda mútua entre mulheres em prol de seus negócios e das suas finanças.

Investimentos para mulheres

A educação financeira do brasileiro ainda engatinha. Quando olhamos no número de investidores, ainda vemos que está em patamares muito baixos. E, quando olhamos para o público feminino, vemos que estes números são ainda piores. De acordo com os números do Tesouro Nacional, apenas 25,2% das pessoas que investem no Tesouro Direto são mulheres. E, de acordo com os números da B3, na bolsa de valores o percentual é ainda mais reduzido: apenas 22,8%.

A desproporção fica ainda mais grave quando olhamos os números de profissionais no mercado financeiro. De acordo com a Morningstar, apenas 7% dos gestores de investimentos são mulheres. No cenário de uma das principais corretoras de investimentos aqui do Brasil, a XP Investimento, dentro os cerca de 5 mil agentes autônomos ligados à empresa, apenas 17% são mulheres (sendo que este número duplicou nos últimos três anos).

Foi dessa realidade que cinco sócias, experientes no mercado financeiro, criaram a Ella’s Investimentos. Trata-se de um escritório de investimentos da XP, com os mesmos produtos oferecidos pelos demais, porém, com o foco em atendimento específico para mulheres e LGBTs.

Outra corretora de investimentos, a Easynvest, também fez uma iniciativa para aproximar as mulheres do mundo dos investimentos. Trata-se do “Nós, mulheres investidoras”, com iniciativas gratuitas de educação financeira para o público feminino.

MIA (Mulheres Investidoras Anjo)

Uma das alternativas para a captação de recursos para um negócio é através dos investidores anjos. Porém, muitas vezes, empreendedoras com ótimos modelos de negócios acabam tendo dificuldades na captação simplesmente pelo fato de serem mulheres (mesmo que os números sejam melhores nas startups de mulheres, que, de acordo com uma pesquisa feita em 2018 pelo The Boston Consulting Group, em cinco anos, startups de homens faturaram cerca de 10% a menos do que as startups de mulheres). Para se ter uma noção, de acordo com o grupo norte-americano Female Founders Fund, em 2018, startups dos EUA fundadas por mulheres levantaram apenas 2,2% dos investimentos de risco. E, assim como a relação de investidores em geral é bem desproporcional entre homens e mulheres, do ponto de vista de investidores anjo o mesmo acontece. De acordo com a Anjos do Brasil, apenas 12% dos investidores anjo do Brasil são mulheres.

Duas características muito comuns entre as mulheres geram esse cenário:

(1) mulheres podem engravidar e ter filhos, e muitas vezes os investidores (não raro, homens) olham para uma oportunidade de negócio que está nas mãos de mulheres como algo que pode ser problemático por conta disso (igual quando uma mulher acima de 27 anos vai procurar emprego), afinal, ‘e se ela tiver um filho?’. Isso demonstra de cara duas coisas: homens compreendem que filhos são responsabilidade das mulheres, então, um homem de 27 anos prestes a ser pai teoricamente não tem problema, mas uma mulher na mesma situação, sim. Ponto para o machismo!

(2) os negócios de mulheres, não raro, resolvem problemáticas femininas que os homens não conseguem perceber como relevantes, ou como um negócio com mercado potencial não atendido. Esse ponto demonstra duas coisas também: investidores que não conseguem ser empáticos as problemáticas femininas, gerando uma falta de visão sobre as propostas que elas trazem, e, pior, não entendem o mercado feminino como um mercado pertinente e relevante (neste caso é cegueira mesmo... não querem ver 52% da população).

Neste cenário, o MIA surgiu em 2013, para reverter este cenário e possibilitar aumento do número de investidoras anjo. Em entrevista para o portal Uol, a criadora do MIA, Maria Rita Spina Bueno, afirma que a iniciativa já impactou quase mil mulheres.

Anti-cases

Por outro lado, existem exemplos negativos de iniciativas que foram criadas apenas para tirar dinheiro das mulheres:

  • Mandala da Prosperidade, Tear dos Sonhos, Mandala Feminina e Flor da Abundância

Todos estes nomes são referentes a correntes de cooperação que vendem a ideia de promover empoderamento feminino e realização de sonhos.

Na apresentação, o discurso é da luta contra o patriarcado, da desvalorização da mulher e da valorização da ganância. Uma luta muito bem recebida por parte das mulheres, ainda mais quando a apresentação vem de alguma pessoa próxima. Para fazer parte das correntes, além do convite de alguém de dentro, é necessário fazer um investimento inicial. Qual o retorno? A multiplicação do dinheiro acima de qualquer aplicação.

Apesar do fator financeiro chamar muito a atenção, a multiplicação do capital é vista como segundo plano. O principal fator da isca é o de crescimento espiritual e suporte emocional. Isto justifica o fato da maioria das ingressantes serem justamente mulheres em situação de vulnerabilidade. Ou seja, mulheres que precisam de suporte, e que por isso, caem mais facilmente nestes esquemas fraudulentos e ilegais. Sim, esquema de pirâmide no Brasil é ilegal. Os modelos de pirâmides financeiras (modelos comerciais previsivelmente não sustentáveis, que dependem basicamente do recrutamento progressivo de novos integrantes, em níveis insustentáveis) ou de estelionatos (crime contra o patrimônio) são ilegais no Brasil.

Numa reportagem que saiu no Uol, em um destes grupos, para ingressar, a mulher precisa investir cerca de R$ 5 mil, com promessa de retorno de R$ 40 mil (lucro muito acima da realidade, em relação ao risco e ao prazo). O retorno acontece quando a integrante consegue trazer novas pessoas para dentro do grupo. Além das contas não fecharem, já existem vários relatos contra as iniciativas.


Como identificar uma “picaretagem”? Como escolher curso, aceleradora ou associação de mulheres? Se você é uma empreendedora e está buscando referências que possam ajudar no seu crescimento e desenvolvimento, é importante considerar alguns fatores para não entrar em uma fria. Veja como escolher um curso voltado para empreendedorismo, aceleradora ou associação de mulheres, dentre outros:

  • Desconfie de propostas muito milagrosas. Nenhuma ajuda externa vai fazer milagres sem que você concentre muito tempo, atenção e trabalho duro ao seu negócio. Auxilio externo, como de aceleradoras, só será valioso para você focar estes recursos (tempo, atenção e trabalho duro) nos lugares certos.

  • Pesquisa quem são as pessoas por trás do curso, aceleradora ou associação. Ele ou ela tem ou ja tiveram seus próprios negócios? Teve sucesso nestes negócios? Se ‘quebrou’, porque quebrou? Tem networking em business suficiente para te apresentar pessoas e te colocar em contato com empresas parceiras que vão ajudar no seu negócio? Ou seu negócio é justamente somente falar sobre negócios?

  • Desconfie de quem passa muito ‘a mão na cabeça’. Elogios só são válidos se são sinceros, falar o que você deseja ouvir não via ajudar o seu negócio a crescer. Sim, as vezes, os bons consultores, coaches, grupos de empreendedorismo, aceleradoras vão falar verdades difíceis, mas necessárias para você efetivamente melhorar o seu negócio. Muitas vezes crescimento pessoal e da sua empresa precisa passar por algumas verdades duras. Isso não significa que você não possa ser acolhida, mas apenas que criar e gerir um negócio tem sempre seu lado espinhoso. Empreender pode ser sim um mar de rosas, mas terá espinhos. Nunca se esqueça disso.

  • Desconfie de quem é generalista. Afinal, montar uma cervejaria, uma marca de moda infantil, uma fábrica de ração, um negócio vegano, uma escola, uma bicicletaria, um mercadinho, um salão de beleza etc. exige conhecimentos específicos técnicos, mas também de mercado. Quem vai te apoiar no negócio, te dar direcionamento, necessita ter networking, conhecer os players, entender a dinâmica deste mercado etc.

  • O grupo se reune e o assunto central rapidamente vai para outras frentes que não a de negócios. Desconfie se a atenção dada a ‘auto-ajuda’ ou de uma amadora ‘terapia de grupo’ não está minando tempo, ideias e o foco que você deveria estar depositando em seu negócio. Ajudar-se é uma coisa, esquecer do propósito do grupo é outra, totalmente diferente.

  • Antes de efetivamente fazer parte do grupo, aceleradora, curso tente ir um dia (sem custo) ver como é a dinâmica. Há pessoas sérias que fazem trabalhos bacanas com abordagens bem específicas, você também não precisa escolher ficar e investir seu tempo (e dinheiro) em abordagens que não são alinhadas com seus valores ou com seu estilo de vida. Há diversidade entre as mulheres (de valores, crenças, posturas socioculturais), portanto, busque o que faz sentido a você (que pode ser bem diferente do que é para sua amiga, irmã etc.).

  • No universo financeiro, nada pode ser feito milagrosamente. Prometeram baixo investimento e alto retorno em curto prazo? Corre, é cilada!

Você conhece alguém, ou mesmo, você mesma já caiu numa arapuca dessas? Compartilhe sua história, isso pode ajudar uma outra mulher a não entrar numa roubada. Um valor que é transversal e que pode ajudar a todas, sem exceção, é a sororidade.

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