Pesquisa com visão estratégica para territórios
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Um território é muito mais do que um lugar no mapa.
Quando olhamos para uma cidade, um bairro, uma região ou uma área específica, vemos ruas, edifícios, equipamentos, empresas, serviços e infraestrutura. Mas um território não é constituído apenas pelo que está fisicamente presente nele.
Territórios são construídos pelas relações entre espaço, pessoas, história, memória, práticas, atividades econômicas, redes, fluxos, experiências e significados.

Milton Santos nos ajuda a compreender essa complexidade ao pensar o espaço como resultado da interação entre formas espaciais e processos econômicos, sociais, institucionais e culturais que se transformam ao longo do tempo (SANTOS, 2012). A noção de território usado, desenvolvida por Santos e Silveira (2003), amplia essa perspectiva: não basta conhecer os elementos existentes em determinado espaço; é necessário compreender como pessoas, instituições e atividades efetivamente se apropriam dele, relacionam-se e produzem seus usos.
É por isso que pesquisar um território exige mais do que reunir indicadores. Dados demográficos, econômicos, imobiliários, turísticos ou de mobilidade são fundamentais. Mas eles não explicam, sozinhos, como aquele território funciona.
Uma mesma área pode ser lugar de moradia para alguns, de trabalho para outros, de passagem para milhares de pessoas e de memória ou pertencimento para determinados grupos. Pode concentrar atividades econômicas sem que elas constituam uma vocação territorial. Pode possuir importantes equipamentos culturais sem que exista, entre eles, uma experiência cultural integrada. Pode apresentar proximidade física entre atores que praticamente não se relacionam — enquanto organizações distantes espacialmente podem fazer parte de uma mesma rede.
É nesse ponto que a pesquisa deixa de olhar apenas para o que existe no território e começa a investigar as relações que fazem aquele território existir.

Da informação à Inteligência Territorial
Na Tendere, trabalhamos a Inteligência Territorial como uma abordagem capaz de integrar diferentes tipos de evidência para produzir uma leitura multidimensional e estratégica de um território. Isso significa articular aquilo que pode ser localizado, medido, documentado e cartografado com aquilo que precisa ser compreendido qualitativamente: práticas, experiências, percepções, relações, identidades, memórias, valores e significados.
Essa perspectiva dialoga com abordagens territoriais de planejamento que compreendem o território como uma plataforma de articulação de diferentes dimensões do desenvolvimento, evitando análises exclusivamente setoriais (BRASIL, 2008). Também exige reconhecer que atores, instituições, escalas e relações participam ativamente das dinâmicas territoriais (GALVÃO; ROCHA NETO, 2018). Por isso, uma pesquisa territorial pode combinar diferentes campos de conhecimento e diferentes métodos: Ciências Sociais, pesquisa qualitativa, dados socioeconômicos, história e patrimônio, análise espacial, geotecnologias, turismo, economia e análise de redes, entre outros, de acordo com as características e os objetivos de cada projeto.
A lógica não é acumular métodos. É fazer com que diferentes evidências conversem entre si.
Um mapa pode mostrar uma concentração. A observação pode revelar como aquele espaço é utilizado. As entrevistas podem explicar como ele é percebido. A história pode mostrar como aquela configuração foi construída. A análise de redes pode revelar quem se relaciona com quem. E o cruzamento dessas evidências pode mostrar algo que nenhuma delas seria capaz de explicar isoladamente.

Territórios não são homogêneos
Um dos riscos de pesquisas territoriais é assumir que limites administrativos correspondem necessariamente às formas pelas quais as pessoas vivem, utilizam e significam os espaços.
Nem sempre correspondem.
Uma cidade pode conter muitas cidades. Um bairro pode reunir diferentes territórios. E uma territorialidade pode atravessar limites administrativos ou conectar atores e lugares fisicamente distantes.
A etnografia multissituada contribui para essa leitura ao deslocar a investigação do lugar isolado para as conexões, circulações, associações e trajetórias que constituem determinado fenômeno (MARCUS, 1995).
Isso muda uma pergunta aparentemente simples.
Em vez de perguntar apenas:
“O que existe aqui?”
passamos a perguntar:
“Como este território funciona?”
Quem o utiliza? Quem permanece e quem apenas passa? Quem produz suas dinâmicas econômicas e culturais? Quais atores estão conectados? Quais permanecem isolados? Onde estão as centralidades? Quais são as barreiras? Que identidades são reconhecidas? Quais práticas se repetem? Quais mudanças estão acontecendo? E quais possibilidades começam a emergir dessas relações?

Da pesquisa à decisão
Para a Tendere, Inteligência Territorial não termina na organização das informações. O percurso analítico avança progressivamente:
TERRITÓRIO → PESSOAS → PRÁTICAS → RELAÇÕES → SIGNIFICADOS → PADRÕES → TERRITORIALIDADES → VOCAÇÕES → OPORTUNIDADES
Essa sequência é importante porque evita uma inversão bastante comum: decidir primeiro o que determinado território “deveria ser” e procurar depois informações que confirmem essa ideia.
Uma vocação territorial não deveria ser pressuposta apenas porque existe concentração de determinada atividade, um ativo relevante ou interesse institucional em desenvolvê-la. Ela precisa ser investigada. Afinal, é a convergência entre evidências — ativos, práticas, identidade, redes, reconhecimento, públicos, articulações e densidade territorial — que permite compreender se estamos diante de uma vocação efetiva, de uma possibilidade emergente ou apenas de uma intenção de desenvolvimento. A pesquisa passa, assim, a cumprir uma função estratégica: reduzir a distância entre informação e decisão.
Não se trata de dizer antecipadamente o que deve ser feito. Trata-se de produzir conhecimento suficientemente consistente para compreender onde existem potencialidades, para quem elas são relevantes, quais relações as sustentam, quais barreiras precisam ser consideradas e sob quais condições determinadas oportunidades podem fazer sentido.
É essa passagem do conhecimento sobre o território para o conhecimento para a decisão que orienta nossa abordagem. Porque desenvolver territórios não começa pela escolha de uma solução. Começa por compreender o território no qual queremos agir.
Referências
BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos. Estudo da Dimensão Territorial para o Planejamento: Volume I – Sumário Executivo. Brasília: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, 2008.
GALVÃO, Antonio Carlos Filgueira; ROCHA NETO, João Mendes da. Territorialidade e Políticas Públicas no Brasil. Brasília: Escola Nacional de Administração Pública – ENAP, 2018.
MARCUS, George E. Ethnography in/of the world system: the emergence of multi-sited ethnography. Annual Review of Anthropology, v. 24, p. 95-117, 1995.
SANTOS, Milton. Espaço e método. 5. ed., 1. reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo – Edusp, 2012.
SANTOS, Milton; SILVEIRA, María Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2003.




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