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O plástico e a indústria da moda


Exemplo de jaqueta da Patagonia feita com plástico reciclado.


Patricia Sant’Anna


Há duas semanas, discutimos aqui no blog o imenso problema do plástico. As quase 8 bilhões de toneladas de material já produzidas pela humanidade desde o início do século XX continuam ainda, de alguma forma, no ambiente, causando enorme impacto em aterros e nos oceanos. Enquanto instituições, governos, indústria e, provavelmente mais a frente de todos, os consumidores tentam procurar soluções para diminuir o uso deste material - principalmente no uso descartável - existem iniciativas que tentam prezar por reciclar o plástico. Lidar com o lixo que já está presente.


Especificamente na indústria da moda, o plástico tem um papel crucial, desde a composição dos tecidos e aviamentos até as embalagens e comunicação visual. Rever a relação dela com o plástico é essencial, ainda mais se falando de uma das indústrias de maior impacto ambiental no planeta.


Leia também a tentativa de acordo mundial da indústria da moda e governos, realizada na França ainda este ano.


A moda pode rever seu uso intensivo de plástico em várias de suas frentes. Uma delas é basicamente a reciclagem do material, para não buscar mais fontes “cruas” (petróleo) nas suas fontes naturais e reaproveitar o que já está causando impacto no ambiente. Outra seria a alternativa ao plástico na composição de tecidos, uma vez que o problema do microplástico nos produtos de vestuário (mesmo o reciclado) é invisível e extremamente nocivo. E, em terceiro lugar, acreditamos que o problema das embalagens também deve ser pontuado.


Empresas e profissionais de moda não podem mais fingir que o problema não existe, ou praticar o famigerado “greenwashing”. As soluções podem não ser perfeitas, mas é necessário buscá-las.


Reciclagem do poliéster.


Já existem no mercado há muito tempo estes materiais, como os tecidos de malha 100% poliéster feitos a partir de PET reciclado. Ou então novas roupas que surgem a partir de roupas usadas e já descartadas, com a finalidade de retirar o material de seu descarte e recoloca-lo no mercado, gerando menos lixo. As pesquisas da implementação da moda na lógica da economia circular, ou seja, do processo produtivo que não gera descarte, estão na mira de muitas marcas e empresas grandes. Desde que a Fundação Ellen McCarthur tomou a frente do debate, o tema tem sido cada vez mais tratado na moda. Empresas que não buscarem soluções no futuro próximo certamente ficarão para trás.


A Adidas, que está entre as marcas globais de sportswear, streetwear e footwear que causam grande impacto ambiental e social, tem tomado a frente de soluções sustentáveis. Este ano, foi lançada tanto uma coleção com tecidos sustentáveis (em parte reaproveitados), em parceria com Stella McCartney, quanto uma coleção de tênis feitos com plástico reciclado retirado dos oceanos. Todo o processo é divulgado pela marca para o consumidor.


A marca de sportswear/streetwear alemã tem os princípios da economia circular como norte das ações de sustentabilidade da empresa. Segundo o que James Carnes, diretor global de Brand Strategy, divulgou para a imprensa, que a Adidas estabeleceu três passos em direção ao futuro sustentável da marca: primeiro, e o passo em que estão agora, é criar produtos com lixo plástico reciclado. O próximo desafio é eliminar completamente o conceito de resíduos. Por fim, o último passo, é explorar maneiras de criar produtos que possam ser completamente recicláveis ou biodegradáveis.


A Patagonia é certamente a pioneira em primar por ações sustentáveis. Em 1993, a marca californiana lançou sua primeira jaqueta feita a partir de garrafas recicladas. Em 2011, sua provocativa campanha “Don’t buy this jacket” foi um exemplo ainda pouquíssimo seguido por marcas de moda - colocar a comunicação da empresa em foco no consumo desacelerado, no reuso e no reparo de roupas e itens que já estão no armário. Hoje, a Patagonia tem investido no posicionamento cada vez mais radical, seja financiando ONGs do setor, seja se contrapondo ao cinismo ambiental da administração Trump. A redução da emissão de carbono é um de seus principais alvos atualmente, com a CEO Rose Marcario, certamente de olho no Acordo de Paris.


A marca também tem como diferencial apontar quais são os erros que causam impacto ao meio ambiente em sua cadeia produtiva e o que está fazendo para combatê-los, algo que poucas empresas têm “coragem” para fazer. Um posicionamento semelhante tem a Veja (ou Vert Shoes, no Brasil), empresa franco-brasileira de produção de tênis sustentáveis. Colocar que a transparência é o primeiro passo da moda que tem como objetivo a sustentabilidade - o greenwashing não vai funcionar por muito tempo, aliás, não funciona mais, principalmente com o consumidor da geração Z, que é engajado, informado e ativista.


Microplásticos.


Mas o problema do poliéster na composição dos tecidos vai além da possibilidade de sua reciclagem. A indústria têxtil e confeccionista contribui de maneira significativa para a presença dos chamados microplásticos nos oceanos - minúsculas partículas que formam uma contaminação perversa e silenciosa (e contribui em maior parte para a Grande Mancha de Lixo do Pacífico, como mostramos no post anterior).


As roupas com poliéster na composição liberam micropartículas do material a cada lavagem. Com o descarte da água nos sistemas de esgoto, rios e, consequentemente, nos oceanos, contribui com a formação de cada vez mais camadas de plástico nestes ambientes. Ao contrário de materiais plásticos que podem ser separados e recolhidos, os microplásticos como os que provêm das roupas de poliéster dificilmente podem ser separados e recolhidos. É também uma ameaça concreta a saúde humana, uma vez que podemos ingerir essas partículas por meio dos peixes e outros animais marinhos que consumimos como alimento.





Deixarmos de usar roupas de poliéster, embora bastante desafiador (devido à sua resistência, praticidade e acessibilidade), seria uma das alternativas. Por outro lado, esta questão deve ser medida em relação ao uso de plástico reciclado na composição de novas roupas, como os exemplos da Patagonia e da Adidas. A questão da sustentabilidade é sempre causar o mínimo impacto possível, e não almejar o zero impacto. Tanto nos casos das empresas quanto dos consumidores, como diria o ditado, “o feito é melhor que o perfeito”: não buscar constantemente as soluções de mínimo impacto é que é o problema.





Materiais têxteis: propostas sustentáveis.


A reciclagem do plástico, embora necessária, só pode resultar no downcycling, ou seja, na diminuição da qualidade do produto original. Além disso, pelo mesmo motivo, o plástico pode ser reciclado somente duas ou três vezes, e depois será definitivamente descartado. No entanto, o mesmo não acontece com outros materiais têxteis. Algumas empresas investem na reciclagem do tecido de algodão, tanto para gerar menor descarte, quanto para tentar diminuir a produção do algodão desde o começo do processo - toda a cadeia produtiva das roupas de algodão tem em geral um gasto imenso de água, por exemplo.


Outras fibras, mesmo sintéticas, não são tão nocivas. Ao contrário do poliéster, a poliamida-6 pode ser reproveitada infinitamente, se devidamente isolada e passada por um processo de reciclagem química (e não a mecânica – que é mais barata e a única ainda utilizada no Brasil). Isso exige, é claro, preparo das empresas e investimento. Desde 2014, a empresa japonesa Asahi-Katie conseguiu pela primeira vez fazer a reciclagem do elastano, criando mais uma possibilidade de reaproveitar um material sintético bastante utilizado na indústria têxtil-confeccionista.


Mas, além da reciclagem, existem inúmeros tecidos que tentam substituir o uso de plástico devido à preocupação com microplásticos no ambiente. Algumas possibilidades são:


  • Liocel. A alternativa mais sustentável a viscose, feita a partir da fibra de bambu em ambientes controlados, existe há muito tempo no mercado e pode ser mais amplamente usada pela indústria da moda.

  • Fibra do abacaxi. A fibra e usada há séculos na região das Filipinas, mas no contexto do comércio colonial e das Revoluções Industriais ela perdeu espaço para o algodão, mais fácil de cultivar em quase qualquer microclima do mundo. Hoje, o uso da fibra do abacaxi torna-se uma possibilidade com ares tecnológicos, principalmente no exemplo do “couro” feito a partir deste material, intitulado Piñatex.

  • Seda vegana. A seda “vegana” - na verdade, um filamento com aspecto de seda produzido a partir da casca de laranja -, já é realidade em alguns produtos da Salvatore Ferragamo, por exemplo. Ela vem suprir a demanda do mercado de luxo por opções veganas, mas com aspecto nobre muito semelhante ao tecido original e sem a utilização de plástico.

O problema das embalagens.


Por fim, o problema do plástico se coloca também como um problema em relação às embalagens. Neste caso, é preciso pensar que existem duas frentes a se considerar: as embalagens B2C e as B2B. A primeira se refere a sacolas, caixas e pacotes de lojas físicas e online (e-commerces). A segunda, são capas protetoras, caixas, sacolas, cabides e outros acessórios utilizados pela indústria e o varejo para transportar, proteger e conservar os produtos. (observação relevante: embora tenhamos focado mais no vestuário, a indústria da beleza também tem um problema em embalagens, inclusive, de aumento do uso de microplásticos).


O problema do plástico descartável é uma questão que envolve qualquer indústria, de canudinhos a sacolinhas de supermercado. Algumas cidades, estados e até países vão fechando o círculo e proibindo cada vez mais o uso de itens de plástico descartável. Por exemplo, canudinhos plásticos não são mais permitidos em estabelecimentos comerciais nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. Algumas cidades brasileiras também o proíbem, como Fortaleza, Belém, Goiânia e Porto Alegre, para ficar só entre algumas capitais. No âmbito dos países, tanto o Canadá quanto toda a União Europeia planejam proibir completamente qualquer embalagem de plástico descartável até 2021 (depois de amanhã, isto mesmo).


A Fundação Ellen McCarthur e a ONU criaram este mês, pela primeira vez, um compromisso global com a diminuição do uso de plásticos descartáveis – você pode ler na íntegra aqui . Com a assinatura de 19 governos e mais de 200 empresas (que, juntas, representam aproximadamente 20% do plástico usado no mundo), a Fundação estabeleceu uma lista para identificar uso de embalagens de plástico (ou com o plástico como um de seus componentes) que são excessivas ou desnecessárias:


  1. Não é reutilizável, reciclável nem pode ser deteriorada em compostagem;

  2. Possui, ou sua produção exige, produtos químicos que têm risco significativo para a saúde humana ou ao meio-ambiente;

  3. Pode ser evitada (ou substituída por uma embalagem reutilizável) enquanto ainda mantém sua funcionalidade;

  4. Impacta a reciclagem ou compostagem de outros itens e

  5. Tem grande probabilidade de ser incinerada ou ser descartada no meio ambiente.

Pense nas embalagens e outros itens utilizados na sua empresa. Eles correspondem aos critérios acima? Talvez seja hora de mudar.


É claro que a mudança não é simples. Na NEONYT deste ano, a maior feira de moda sustentável do mundo, realizada em Berlim, Alemanha, o tema foi explorado em dois painéis de discussão reunindo alguns empreendedores e profissionais ligados a moda sustentável (você pode ouvir os painéis completos no Podcast da NEONYT). Embora atualizados na discussão, muitos deles admitiam que ainda não haviam encontrado boas soluções para embalagens, principalmente se tratando do B2B. Por exemplo, existem sacos de “pergaminho” (embalagens 100% papel, mais resistentes, que podem ser totalmente transparentes, como o plástico), mas que, a longo prazo, seria uma solução apenas paliativa, como o plástico, já que ainda é uma embalagem descartável.


Ao mesmo tempo, a indústria da moda possui fornecedores no mundo inteiro, e uma coisa é certa: todos possuem embalagens de plástico, que é acessível e barato. O problema da embalagem de plástico na indústria da moda precisa de soluções globais.

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