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O pensamento crítico está em crise?

Patricia Sant’Anna, Helder Oliveira, Victor Barboza e Vivian Berto


Foto: ISaw Company no Unsplash.

Um fato nos textos escritos sobre os últimos eventos de arte internacionais - a Bienal de Veneza, a Art Basel e a SP-Arte - nos tem chamado a atenção. Trata-se da ausência de crítica de arte. A maioria dos textos que falam sobre artistas, obras e exposições ou são superficialmente descritivos, ou se limitam a elogios rasos, ou então parecem reproduzir o texto de press releases (podemos perceber isso quando vemos que os textos de vários veículos são semelhantes…). Conteúdos superficiais que acompanham imagens de posts de Instagram - não que a mídia social seja, em si, um problema, mas o uso superficial que lhe é dado mina as possibilidades de democratização e disseminação das imagens e debates destes eventos que eram, a princípio, elitizados e exclusivos.


Não podemos ignorar o quanto a crítica de arte é importante para a própria arte. Quando bem-feita, ela traz debates sobre as obras, e, seja bem recebida ou não, contribui com as obras e artistas a criar um diálogo entre eles e o público. Grandes críticos da história, como Rosalind Krauss, Mario Pedrosa e Harold Rosenberg podem ser considerados quase tão importantes para a arte quanto os próprios artistas.


Por que, então, se esvair da crítica? Justo na arte, que exige debates de pensamentos e ideias sobre as obras?


O crítico de música clássica do New York Times, Alex Ross, já havia feito em 2017 um texto apontando este mesmo problema, agora no cenário musical. Os críticos de música clássica estão sumindo das grandes publicações norte-americanas, ele alertou. Se antes, cada grande jornal tinha seu próprio crítico, agora raramente são contratados alguns freelancers para dar conta do recado. O motivo? Textos críticos sobre concertos, óperas e músicas de câmara dão poucos cliques para jornal - não podem ser usados como clickbaits. Segundo Ross, apenas os filmes blockbuster e as séries de TV muito famosas “merecem” ganhar algum esforço crítico.


No entanto, nós vamos além e pensamos, ainda, que nem essas peças da indústria do entretenimento têm tido a crítica que poderiam ter. É tudo muito superficial, breves comentários e algumas declarações bombásticas (clickbaits), muitas vezes apenas “falando mal”. Vale lembrar que fazer a crítica de algo não é falar mal sem motivo, mas sim apresentar para o leitor uma reflexão aprofundada sobre a peça em questão, que pode se desdobrar em positiva, negativa ou mesmo neutra. É elevar as possibilidades de debate em cima de uma produção artística. Auxiliar a obra a levar o público a pensar e a se relacionar com ela.


Vale lembrar que fazer a crítica de algo não é falar mal sem motivo, mas sim apresentar para o leitor uma reflexão aprofundada sobre a peça em questão.

Assim como nas artes, na moda a crítica vem desaparecendo aos poucos. Quando Cathy Horyn pediu demissão do New York Times, em 2014, e não foi substituída à altura, muitos se preocuparam com com uma “morte” da crítica de moda, que, afinal, se concretizou. Nós escrevemos sobre isso na época (link). No Brasil, a crítica de moda se esvaiu à medida em que elogios precisavam ser feitos em nome de um pequeno clube de nomeados. Hoje, nas publicações que falam sobre moda no País, não é de se lamentar a repetição de releases ou o tom de fofoca? (inesquecível - para pior - foi a análise superficial/elogiosa de Pedro Diniz sobre o vestido branco de Marcela Temer, em 2016, em pleno clima de discórdia política e golpe de Estado).


A crise do jornalismo.


A “crise da crítica”, se é que podemos chama-la assim, está muito associada à crise do jornalismo. Matérias sem profundidade, sem investigação, sem pensamento crítico pululam nos veículos de grande circulação. Muitos apontam a pressão dos cliques e anunciantes (da necessidade de “buzz”, barulho, em cima de uma notícia), bem como o fato de estarmos menos habituados a ler textos longos, o que faz com que os textos dos jornais sejam cada vez mais enxugados.


Mas devemos tomar cuidado com afirmações simplistas (e sem crítica!) que possamos fazer sobre a relação entre comunicação e internet. Um dos exemplos de jornalismo crítico mais contundentes no Brasil recente é a série de matérias lançadas pelo The Intercept sobre a associação comprometedora entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol e, consequentemente, da própria Lava Jato. Matérias feitas por um veículo da internet. (Também podemos afirmar que a excitação em torno das matérias de Glenn Greenwald sobre a Lava Jato se deve também ao fato de que o The Intercept faz o que todo veiculo de comunicação deveria fazer - investigar, criticar.)


A “crise” do jornalismo e da crítica podem ser relacionados menos com as mudanças da comunicação referentes à internet do que com a rapidez e superficialidade que é cada vez mais exigida do jornalismo. Os profissionais, muitas vezes freelancers mal-pagos, devem entregar um número imenso de textos em um curto espaço de tempo. Se não o fizerem, há outros profissionais que podem se submeter a isso para substitui-los.


No caso da crítica na indústria criativa, da qual este nosso texto se ocupa, o tempo é especialmente relevante. Se um produto cultural ou uma obra de arte levam tempo para serem criados, a absorção, o entendimento e consequentemente o trabalho crítico também demandam tempo. Impossível assistir a uma peça de teatro, ouvir um álbum de música ou ver uma exposição de arte e entregar uma boa “crítica”, em poucos minutos, para ser publicada online.



É preciso crítica para se viver no mundo atual.


Em 2018, o Fórum Econômico Mundial de Davos exibiu o painel Visions for a Shared Future, com alguns valores considerados essenciais para o futuro próximo, em especial para “sobrevivermos” ao mundo cada vez mais automatizado. Em primeiro lugar se encontra “Solução de Problemas Complexos”, e, logo em segundo lugar está o item “Pensamento Crítico” (Critical Thinking), que nunca havia aparecido antes nos painéis do Fórum (veja a lista completa aqui). Isso revela o quanto estamos carentes de pensamento crítico, olhando para fatos e informações superficialmente.


Hoje temos o privilégio de viver em um mundo no qual muitos podem dar sua opinião. A internet possibilita que muito mais pessoas tenham voz - e sejam ouvidas - o que tende a democratizar e pulverizar discursos. Mas o ponto negativo é que a mesma ferramenta é uma faca de dois gumes: ela também auxilia a criar multidões de pessoas falando e ninguém mais ouvindo. Cenários políticos atuais são a prova disso.


Mas esse fato não elimina a necessidade da crítica. Alex Ross afirma que o pensamento crítico não depende necessariamente da profissão do crítico, ele pode sobreviver sem ela. Mas necessariamente outros terão que assumir o papel da crítica, pensar, debater, e, segundo Ross, “ficar de pé no espaço público e falar, ‘não é bem assim…’”. Não podemos viver sem crítica.

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