O gigantesco problema do plástico


Instalação “Over Flow”, de Tadashi Kawamata, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa. Foto: Martjn Baudoin no Unsplash


Patricia Sant''Anna


A ciência, os números, os especialistas alertam para o excesso de lixo plástico, que está causando danos gigantescos e potencialmente irreversíveis ao planeta. Como não há previsão de quanto tempo levaria para o material se deteriorar, literalmente todo o plástico já produzido na história está presente no ambiente, de alguma forma. São mais de 8 bilhões de toneladas desse lixo no mundo. Apenas 9% foi reciclado. Estima-se também que 12% foi incinerado, o que causa danos iguais ou piores que o lixo sólido descartado. Se o ritmo de produção e descarte continuar, serão 12 bilhões de toneladas de plástico.


Nos oceanos, a situação é especialmente crítica. Apesar da maioria do lixo produzido no mundo estar em aterros – quase 90% dele – é nos mares que vemos o impacto mais evidente e, pior, o quanto o lixo, em especial o plástico, impacta ecossistemas inteiros. Mortes de animais marinhos e de aves por ingerir ou se ferir com peças de plástico são tristes notícias bastante comuns e divulgadas.


A Grande Mancha de Lixo do Pacífico, formada devido às correntes marítimas, é um exemplo. A maior parte da mancha não é, no entanto, o que se poderia imaginar – uma grotesca e grande ilha formada por lixo sólido, visível. Seu perigo é bem menor e mais pernicioso: a maior parte é formada por pedaços minúsculos de plástico (chamados de microplástico) devido à deterioração do material, em grande parte por ação do sol (fotodegradação). E ele é muito mais difícil de detectar e separar da natureza. Eventualmente, o microplástico ingerido por peixes e outras espécies marinhas utilizadas para o consumo humano pode ir direto para os nossos organismos, ocasionando também um grande problema de saúde mundial.


Por que plástico?


O plástico é um material versátil, leve, flexível, resistente e barato - por isso seu uso intensivo e muito diversificado. O problema do plástico em comparação a outros materiais nocivos é que o produto tem um ciclo de vida muito curto e já é descartado. O tempo médio de uso de uma sacola plástica, por exemplo, é doze minutos.


Mesmo com números tão alarmantes, há quem duvide da situação atual quase tanto quanto da catástrofe climática. Porém, a tendência dos “negadores” das tragédias ambientais não tende a durar. Greta Thunberg é um exemplo máximo de uma geração bastante engajada, que fala e quer ser ouvida, e toma atitudes bastante radicais para tanto. Cada vez mais o comportamento do consumidor, bem como suas exigências, vão para o caminho da sustentabilidade ambiental e social, e o plástico não está excluído das pautas. Isso com certeza cria um cenário mais otimista.


É preciso mudar nossa relação com o plástico, tanto por partes das empresas quanto dos consumidores. Se é um material tão versátil e resistente, porque utiliza-lo de maneira descartável? No caso das diferentes indústrias e suas redes produtivas, cada uma deve criar suas soluções para resolver uma grande crise. Retirar as sacolas de plástico do supermercado e do varejo é uma das ações, que são necessárias. Mas outras precisam ser tomadas, aprofundando ainda mais o debate e unindo consumidores e empresas diante desse impasse.


Nos oceanos, as peças de plástico podem ser decompostas em inúmeras partículas por fotodegradação: formam-se os microplásticos.



Nos oceanos, as peças de plástico podem ser decompostas em inúmeras partículas por fotodegradação: formam-se os microplásticos.


A reciclagem.


Mesmo que alcançássemos um cenário ideal e a produção de plástico no mundo fosse drasticamente diminuída, ainda resta uma questão: o que fazer com todo este plástico que já está aí?


Reciclar é a única maneira de reverter o dano ambiental que já foi causado. Além da limpeza dos ambientes que o plástico está contaminando, seu reaproveitamento para outros fins é a maneira de lidar com o lixo que já temos.


Reciclar plástico não é uma das tarefas mais fáceis, e principalmente por causa da viabilidade e gestão desse processo. Mesmo no Brasil, o número 1 mundial em reciclagem de alumínio – cerca de 98% desse material, principalmente formado por latinhas, é reciclado – perde na hora da reciclagem de plástico. Uma das justificativas pode ser o preço e a viabilidade. Enquanto o quilo da latinha chega a custar R$5,00, o do plástico custa apenas R$1,00. Para catadores e empresas de reciclagem, pode ser simplesmente um material que não compensa. Além disso, é preciso gerir a questão do plástico que se torna impróprio para a reciclagem por uma série de motivos, como o excesso de sujeira.


Já os Estados Unidos e na União Europeia vivem uma verdadeira crise da gestão do lixo plástico. A maior parte de sua reciclagem (junto com papel e vidro) era feita por empresas chinesas – 60% dos gerados nos EUA e mais de 70% dos da União Europeia. Literalmente, a China importava lixo, destinado a suas empresas de reciclagem. Como o país fechou as portas para o lixo plástico do Ocidente com uma legislação mais rígida no começo de 2018, que restringiu o lixo a ser importado com regras muito fixas de contaminação, isso gerou uma verdadeira crise, e os países desenvolvidos buscam outros locais para exportar o lixo, a maioria no sul asiático. Mas mesmo estes já estão saturados com o material plástico do Ocidente, especialmente porque esses países exportam também plástico impróprio para reciclagem (por exemplo, sacolinhas plásticas ou canudos, que não podem ser reciclados). No final de maio, o Canadá recebeu “de volta” 1,5 toneladas de lixo plástico impróprio que havia sido enviado para as Filipinas (um impasse entre os dois países desde 2014).


Mesmo com tantos desafios, reciclar ainda é a melhor maneira de lidar com este material. Existem inúmeras empresas e iniciativas que, embora estejam em nível bastante experimental, propõem lidar com este problema das bilhões de toneladas de plástico.





Boas iniciativas para lidar com o problema.


A Ocean Clean Up é uma empresa de recolhimento e reciclagem de plástico. Seu principal alvo é a Grande Mancha do Pacífico – uma máquina com uma rede de mais de 180 metros de comprimento flutua à deriva no mar e recolhe o lixo. A rede é preparada para recolher desde peças maiores até microplásticos.


Fundada pelo holandês Boyan Slat em 2013, foi no começo deste mês que a coleta foi bem-sucedida pela primeira vez. A empresa pretende enviar o lixo para reciclagem e o que não puder ser reciclado irá ser queimado para geração de energia.


No Brasil, a corporação norte-americana de produtos químicos Dow fez uma parceria com a start-up brasileira Boomera para reciclagem de plástico. O processo consiste em desenvolver uma resina termoplástica a partir de embalagens PET recicladas. Investir em uma cadeia de valor para que o material plástico realmente chegue às usinas de reciclagem e de transformação é um dos objetivos – por isso, a parceria com grandes empresas pode ser eficaz.


Outro exemplo que torna este cenário caótico mais otimista é que cada vez mais são desenvolvidas tecnologias para reciclar tipos de plástico que anteriormente não era possível, como os chamados “plásticos não puros”. A empresa alemã Biofabrik já recicla uma gama maior de plásticos para os transformar o lixo em combustíveis. Os compostos dos resíduos plásticos são quebrados por altas temperaturas e transformado em um composto (que pode ser líquido ou gasoso) pode ser usado para abastecer motores marítimos, ou em geradores para ser convertido em energia elétrica.


Com o descarte tão efêmero de um material como o plástico, é importante encontrar soluções para as indústrias mais pesadas, de bens mais duráveis. A iniciativa da empresa holandesa VolkerWessel, chamada PlasticRoad, se dedica a usar plástico reciclado como componente para asfaltos - inclusive, como uma alternativa mais resistente e durável que a do asfalto tradicional. Anunciado em 2015, o PlasticRoad teve sua primeira implementação em setembro do ano passado: uma ciclovia de 30 metros (que utilizou 218 mil copos de plástico e 500 mil tampas de garrafa plástica) foi feita em Roterdã com o novo material.



Exemplo de bloco de construção da ByFusion.

Outro exemplo de longa duração: os blocos para construção da neo-zelandeza ByFusion. Ainda em processo de experimentação, a empresa visa substituir os blocos de concreto pelo plástico reciclado. Além do reaproveitamento de resíduos, a iniciativa deve reduzir a pegada de carbono (que seria do concreto) em até 95%! Boas ideias e pesquisas têm surgido na indústria de construção civil, que, embora ainda não tenham sido implementadas completamente, mostram um panorama mais otimista e preocupação da indústria em reverter o problema do plástico.


Na moda, inúmeras iniciativas já pensam em reciclagem de plástico, com destaque para a produção de calçados. Num próximo post, iremos abordar a responsabilidade, as possibilidades e as iniciativas já implementadas no mundo da moda para lidar com o enorme, mas solucionável, problema do plástico.

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