• Tendere Tendere

Dia internacional das mulheres: mercado, empreendedorismo e economia criativa.

Março chegou, e trata-se do mês em que temos o dia internacional da mulher. A data, 08 de março, como vocês devem saber, não foi escolhida aleatoriamente, é a data em que 130 mulheres operárias do setor têxtil, foram, não só oprimidas, mas mortas carbonizadas dentro de uma fábrica, nos EUA, no início do século XX. Anos depois, após a primeira guerra mundial, foi também a data em que mulheres saíram às ruas, na Rússia, clamando pelo fim da fome assolava a região. A data foi oficializada em 1975, pela ONU, como meio de relembrarmos as diversas lutas e conquistas das mulheres ao longo da história, como, por exemplo, o direito ao voto. No entanto, estamos longe de ter equidade de gênero em nossa sociedade, mas seguimos lutando, um dia de cada vez.


Sra. Emmeline Pankhurst, líder do movimento Sufragista, é presa em frente ao Palácio de Buckingham, enquanto tentava apresentar uma petição ao rei George V, em maio de 1914.


Mulheres e poder

Quantas mulheres você conhece em cargos de poder (nível de diretoria) dentro de empresas e instituições (públicas e privadas)? Sim, ainda são poucas. Apesar das mulheres estudarem mais, se prepararem mais, e mesmo serem mais aptas a muitas das características exigidas para se prosperar em uma carreira corporativa, isso não é o que reflete a realidade em que vivemos. Para se ter uma ideia, em 2000, eram 2.593.190 homens com mais de 25 anos com ensino superior completo contra 3.031.713 mulheres. Já em 2010, eram 5.137.477 homens para 7.058.289 mulheres com ensino superior acima dos 25 anos (fontes: censo de 2000 e 2010 do IBGE). É importante frisar também que a parcela de mulheres negras cresceu imensamente dentre as mulheres com nível superior completo (isso é um dado a se comemorar). No entanto, isso não é perceptível nas corporações, segundo a Bain & Company, em parceria com o LinkedIn, somente 3% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres.



Rachel Maia, a exceção da exceção: mulher negra brasileira no poder de poderosas empresas internacionais, primeiro Pandora, depois Lacoste. Tendo antes sido diretora na Tiffany & Co, Novartis entre outras.

Nesta mesma pesquisa, intitulada Sem atalhos: transformando o discurso em ações efetivas para promover a liderança feminina, feita por duas mulheres, Luciana Staciarini Batista e Luiza Mattos, elas listaram 5 ações que as empresas deveriam focar para promover a diversidade e inclusão nas empresas. Mesmo que o resultado tenha demonstrado que 82% das mulheres e 66% dos homens, acreditem qeu alcançar a igualdade de gênero no ambiente de trabalho seja benéfico, e que deveria ser uma das cinco prioridades nas empresas em que atuam. Só 41% das mulheres e 38% dos homens acreditam que os líderes de suas companhias tratam o tema como prioridade. Até um certo ponto, as mulheres conseguem crescer como os homens em ambientes corporativos, o problema é quando se chega ao nível de diretoria, e presidência. Aí os vieses emergem e superá-los torna-se um peso maior nas costas das mulheres do que nas dos homens. Esses vieses passam pela maternidade e a autoimagem das mulheres, normalmente menos positiva e muito autocrítica se comparada aos homens. Por exemplo, na hora de se candidatar a uma vaga, segundo essa mesma pesquisa, homens se inscrevem mesmo que não preencham todas as qualificações, enquanto as mulheres só se candidatam quando possuem 100%. Superar a 'síndrome da impostora' e também a ideia de ser um 'sexo frágil' são vieses que todos devemos ultrapassar.



Autocrítica em si não é um problema, desde que ela não seja destrutiva e mate seus sonhos, desejos e visão de mundo.

Empreender: um caminho possível, mesmo quando por necessidade.


Muitas das mulheres que empreendem não o fazem porque identificaram uma oportunidade, mas sim por necessidade. Como vimos acima, não é difícil estarmos preparadas, mas é fácil sermos preteridas do mercado convencional corporativo. Desta maneira, empreender torna-se um caminho possível. Isso contribuiu para que o Brasil seja o sétimo país com maior número de mulheres empreendedoras no mundo (SEBRAE, 2019). Aproximadamente mais de 24 milhões de brasileiras tem seus próprios negócios. De novo vemos aqui se repetir a informação de que mulheres empreendedoras estudam mais que homens, continuamente se atualizam, mas conseguem rendimentos menores (22% menos que os homens em mesma situação). O grande desafio é conciliar o fardo social de ser responsável pelo trabalho doméstico ao mesmo tempo em que precisa tocar o seu negócio.


Mulheres precisam programar o dia para 'caber' todas as suas responsabilidades sociais dentro de um único dia. Os principais problemas enfrentados pelas mulheres empreendedoras são:


  • Preconceito do mercado: mulheres empreendedoras precisam provar suas capacidades mais do que seus concorrentes homens, sobretudo se atuam em áreas majoritariamente masculinas. Vou dar exemplo de minha própria jornada: quando vejo um homem no mercado falando que é pesquisador, raramente ele tem que expor suas credenciais, eu sou sempre inquerida sobre o que estudei, onde estudei, quem atendi, o que ganharam com isso, por quê escolhi essa ou aquela técnica de pesquisa, e, pasmem, como cheguei aquele resultado, sim, já tive mais de um cliente que não acreditou nos resultados das pesquisas, e mesmo pedindo por uma pesquisa qualitativa queria resultados em porcentagens. Dica de ouro: procure outras mulheres, é mais fácil abrir espaço para o diálogo e para você mostrar seus serviços e produtos com menos pressão (há sororidade no mercado).


  • Dupla e Tripla jornada: nós queremos tudo e mais um pouco, e não há nada de errado com isso. No entanto, recai sobre os ombros femininos responsabilidades que deveriam ser divididas com mais pessoas, tanto na empresa, quanto no âmbito privado. Na empresa é necessário organizar o tempo, respeitar a sua agenda, aprender a priorizar e dividir as responsabilidades com a equipe. No ambiente doméstico urge uma divisão com todos que vivem juntos, qualquer pequena ação de alguém pode poupar muito de seu tempo e desgaste. Afinal, todos que estão ali devem ser responsabilizados, afinal todos vivem neste lugar em conjunto com você. Sim, sabemos, isso não é fácil, envolve mudança de hábitos (organização eficiente do tempo) e negociação com quem está com você no ambiente empresarial (equipe) e doméstico (companheiros/as, filhos, parentes, amigo/as etc.). Dica: diálogo transparente e direto, paciência e persistência para mudar os seus hábitos e dos que estão a sua volta. Pode ter certeza que todo mundo sai ganhando.


  • Autoconfiança: somos criadas para ter uma autocrítica massacrante, e não construtiva. É bom ter autocrítica, mas não a ponto de colocar em constante situação de medo e paralisia. Mulheres não tomam riscos suicidas em seus negócios, como homens tomam, pelo contrário, não raro o perfil das mulheres empreendedoras é bastante 'pé no chão'. No entanto, as vezes é tão 'pé no chão' que não conseguimos dar um passo a frente, temos medo de ampliar, fazer nosso negócio crescer, por puro medo, por achar que: 'eu não vou dar conta', acabando por cair em uma autosabotagem. Todas sabemos que o ideal é o equílibrio, isto é, arriscar sim, mas consciente do porque estamos apostando no risco. Parece contraditório, mas não é. Por isso, indico: sempre estude e se atualize. Se alguém falar o contrário para você, lembra que não é esta pessoa que paga seus impostos e contas, que ela não lhe dá suporte para tomar decisões, que ela não é responsável pela sua felicidade e realização, só você é. Para estar preparada para o futuro, não devemos evitá-lo, mas sim devemos estar continuamente atualizada é uma das melhores maneiras. Dica: analise seus pontos fortes e liste, analise seus pontos fracos e liste. Todos os pontos fracos, com raríssimas exceções podem ser sanados. Tudo o que pode ser visto em uma autocrítica massacrante como impeditivo, pode ser, na verdade, uma oportunidade.



Sobre esse último item - autosabotagem e autocrítica destrutiva - vale ver o TED já antiguinho (2012), mas muito bom de Amy Cuddy (acima vc consegue ver). Ela fala sobre como as pessoas podem ou não ter posturas (corporais) que trazem mais confiança no trato social, e que isso é fundamental para seu sucesso. Não é apenas o posicionamento corporal, mas o que ele dispara tanto socialmente quanto internamente no corpo que pode te fazer ser mais ou menos forte em sua presença. Ela mesma fala sobre como aplicou isso em sua vida profissional, e abertamente se emociona ao perceber que ela não é uma farsa, pelo contrário, é uma pesquisadora muito bem sucedida, afinal, ela, Amy Cuddy é professora em Harvard Business! Quer se inspirar mais? Você pode ver as Histórias de Poder, do Sebrae Delas, com histórias de empreendedoras.


Lidando com esses três pontos, de maneira a tirar o melhor que conseguimos, empreender pode ser menos traumático do que se fala, mais realista, prazeroso e rentável!


Empreender em Economia Criativa


Há também quem se organiza para empreender não por necessidade, ou por oportunidade, mas por prazer. Fazer o que ama. A pessoa guarda capital para fazer o seu negócio, e trabalhar com o que mais gosta, e investe fundo nesse sonho. Atendo muitas mulheres que querem (ou já começaram) a empreender em áreas como moda, arte, design etc. (enfim, Economia Critativa) e fico apreensiva quando noto que tudo foi baseado, muitas vezes, em diversas fantasias romantizadas sobre o que é ter uma negócio na área em que você gosta.


Eu mesma abri a Tendere para atuar na área que eu mais gosto que é atuar em em Economia Criativa, oferecendo o que amo fazer: pesquisar e solucionar problemas. Primeiro de tudo, é necessário ter consciência de que sou ultra privilegiada: sou branca (para os padrões brasileiros), estudei em uma universidade de ponta, fiz graduação, mestrado e doutorado e na Unicamp. Quando decidi abrir um negócio e pivotar minha carreira de docente e pesquisadora acadêmica para pesquisadora de mercado (Future Studies, Comportamento do Consumidor etc.) tive o privilégio de incubar a minha empresa na Unicamp. Não tenho filhos, e meu companheiro sempre dividiu todas as responsabilidades da casa comigo. Ele sempre apoiou muito a Tendere. Ainda hoje ajuda-me sobremaneira na parte de gestão da empresa. Mesmo com todos esses privilégios já trabalhei de segunda a segunda, acordei (e ainda acordo muitas vezes) de madrugada para dar conta das entregas. Nos momentos de exaustão, sobretudo quando estamos 'duras e com dívidas', tive os desejo de fechar a empresa... Nestes momentos pensei que estava em um lugar sem futuro. E é aí que você percebe que (1) não está sozinha - muita gente me dava força, admiravam a empresa e a postura dela, de certa maneira, direta, ou indiretamente, essas pessoas diziam para persistir; (2) quando se trabalha com o que você gosta faz a diferença: você não desiste fácil, você consegue dar a volta por cima.



Empreender em Moda: bem mais do que 'fazer roupa'!

E na área de Economia Criativa (moda, publicidade, design, arte, música, patrimônio, arquitetura etc.) há muitas iniciativas de negócios que são iniciadas e fundadas por mulheres. São mulheres diversas, com e sem privilégios, que adentram neste amplo campo apaixonante para empreender. Enfrentam machismo, desigualdades mil, mas são guerreiras diárias em manter um negócio de pé. E isso, no Brasil, não é para amadores, afinal, crises econômicas, sociais, políticas pontuam nossa história recente de maneira muito forte. No entanto, temos apoios bons, como o SEBRAE que hoje já conta com área específica dedicada às mulheres empreendedoras.


A transformação mais importante que noto nestes meus 20 anos de vida profissional é que mais que estar no mercado em nível de diretoria ou empreender com sucesso, hoje as mulheres cada vez mais se apoiam. E são iniciativas de mulheres que apoiam outras mulheres, que nos inspira e faz olhar para o futuro com esperança e felicidade. Cito aqui a Rede Mulher Empreendedora, o Plano de Menina, a Aceleração de Negócios de Empreendedoras Negras/Feira Preta , a plataforma Transempregos etc. Cada uma dessas iniciativas ajuda, dá apoio, e transforma a vida de mulheres em situações muito diferentes. Todas essas iniciativas são louváveis e devem servir de inspiração para muitas outras.


No entanto, há uma grande quantidade de oportunistas, e por isso, escrevemos o texto sobre o lado perverso do empreendedorismo, em um texto que fala sobre como esses e essas oportunistas que atuam operando de maneira cruel nas fragilidades femininas para empreender (leia esse texto aqui). É importante estarmos atentas a não cair nestes 'contos do vigário', e entendermos que empreender é algo que traz realização, felicidade, criatividade etc., mas que todo cuidado é pouco, é necessário fazê-lo de maneira ética e digna.


Nesse dia internacional da mulher, para nós, o importante é apoiar outras mulheres a serem plenas e realizadas. E para isso é necessário conseguirmos ser o que queremos ser na área(s) profissional(is) que escolhemos ser. Seja uma professora, uma assistente doméstica, uma secretária, uma cientista, ou uma CEO. Seja uma profissional liberal, CLT, servidora pública, autônoma, empreendedora, ou voluntária. Seja criando uma empresa unicórnio, ou montando a marmitaria, costurando bonecas para a caridade, ou sendo decoradora de festas infantis. Não importa as suas escolhas profissionais, o que importa é nos apoiarmos, compreendermos que não há sonho menor, ou maior, mas sim realização em diferentes áreas para diferentes pessoas. Que todos virem objetivos e metas realizáveis, prósperos e que sejam fontes de alegria e plenitude.




REFERÊNCIAS:Leituras disponíveis e muito indicadas para você saber mais sobre o assunto:


Pesquisa LinkedIn e Bain & Company: BATISTA, Luciana Staciarini, MATTOS, Luiza. Sem atalhos: transformando o discurso em ações efetivas para promover a liderança feminina Cinco ações para fomentar diversidade e inclusão na sua empresa in: https://business.linkedin.com/content/dam/me/business/pt-br/talent-solutions-lodestone/body/pdf/Gender_Parity_2019.pdf (acessado em 23 de fevereiro de 2022).


Pesquisa IPEA: REZENDE, Daniela Leandro. Mulher no poder e na tomada de decisões. https://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/190215_tema_g_mulher_no_poder_e_na_tomada_de_decisoes.pdf (acessado em 23 de fevereiro de 2022).


SEBRAE. Participação de mulheres empreendedoras cresce no Brasil. In: https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ufs/sc/noticias/participacao-de-mulheres-empreendedoras-cresce-no-brasil,06fd4563d8318710VgnVCM100000d701210aRCRD (acessado em 23 de fevereiro de 2022).


CUDDY, Amy. A nossa linguagem corporal modela quem somos (2012). In: https://www.ted.com/talks/amy_cuddy_your_body_language_may_shape_who_you_are?language=pt (acessado em 23 de fevereiro de 2022)


23 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo