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O retrô está mudando?

Vivian Berto



A Motorola pode estar prestes a lançar uma versão atualizada do telefone celular RAZR V3, mais conhecido no Brasil como Motorola V3, praticamente um ícone do design de produto da metade dos anos 2000. As especulações estavam sendo anunciadas pela mídia especializada desde agosto do ano passado, porém, um registro na World Intellectual Property Organisation em dezembro reafirma as suspeitas.


Suspeitas... porque a própria Motorola não confirmou nada ainda. Porém fãs, especialistas e entusiastas da tecnologia já delineiam como poderia ser o produto. O pouco que se sabe é que, segundo o próprio registro de patente, o aparelho deve entrar na onda das telas flexíveis para concorrer principalmente com o Samsung Galaxy S10 (programado para ser lançado em abril). A revista digital Yanko Design chegou a fazer um protótipo especulativo do novo V3, com base nos desenhos do registro.





Por que tanto entusiasmo em torno do relançamento do celular? Um aroma afetivo, está relacionado com o icônico produto, objeto de desejo na época em que foi lançado, em 2004. Menos de 15 anos separam o V3 dos dias de hoje. Ele pode ser considerado, então, retrô? O que caracteriza o objeto retrô? Será que este conceito está mudando?


Nostalgia e design

O chamado “redesign retrô” é a criação atual de um produto que se assemelhe ao design de outras épocas. Difere do vintage (quando o produto é realmente “antigo”, recuperado) e da réplica (recriação literal de objetos de outros tempos, ainda que com materiais e técnicas atuais).

O retrô como conhecemos hoje foi assimilado pelo design nos anos 1970. Antes disso, se outra época era retomada, tinha de ter pelo menos cinquenta anos de existência para ser assimilada pelo consumidor – podemos lembrar, como um exemplo, da “regra” de James Laver para a moda (no quadro). Porém na década de 1970 foi a primeira vez em que uma estética com menos tempo de vida era recuperada no design de então, e vestida com ares de “saudade” ou “nostalgia”.



Ou seja, não era apenas retomar um passado, mas sim trabalhar com um passado afetivo, algo que o consumidor lembra e evoca (nem que não sejam suas próprias memórias, mas a de seus pais, que eles ouviram na infância e evocam como se fossem suas). O tempo da retomada do retrô passa para trinta ou mesmo vinte e cinco anos. Depois dos anos 2000, esse tempo se torna mais elástico: de quinze a cinquenta anos. O artigo de Damien Hallegatte possui uma tabela interessante para observarmos a “evolução” do retrô ao longo da segunda metade do século 20 - que reproduzimos, traduzida, abaixo.


Mudanças tecnológicas em rápida transição

Pode não parecer que quinze anos já nos separam da data de lançamento mundial do Motorola V3. Ou seja, aquela geração de celulares já entra na régua temporal que define o retrô. Algo semelhante acontece com softwares e outros produtos da primeira metade dos anos 2000, como por exemplo o Windows XP, o mIRC, o programa de execução de músicas Winamp (embora estes dois últimos ainda existam) ou os primeiros iPods e MP3 players.


Isso já estava ocorrendo antes. No início da nossa década, a noção recém-percebida de que a internet – essa novíssima tecnologia! – estava se tornando algo “antigo” fez explodir uma estética inspirada no design dos primeiros softwares e browsers de meados dos anos 1990. Batizada de maneira geral como “vaporweave”, ela surgiu em mídias sociais como o Tumblr e se espalhou rapidamente, como fad ou modinha, para a moda e o design de produto.


Ou seja, internet e celulares flip não são assim produtos tão “jovens”. Ainda assim, podemos pensar que o processo de transformar um produto em retrô está mais acelerado? As mudanças tecnológicas sugerem que sim. Dez ou quinze anos de diferença produziram mudanças bruscas nos produtos e na maneira como lidamos com a tecnologia. Internet mais rápida nos traz um imediatismo muito maior, por exemplo. (É claro que a tecnologia não “chega” na vida das pessoas e muda-as completamente – para Pierre Lévy, são também as demandas humanas que trazem as mudanças tecnológicas que chegam para ficar. É um sistema que se retroalimenta.) Se, para 2020, a expectativa é que a internet seja 95 vezes mais rápida do que na época de sua criação (conforme apresentado no 14º Seminário de Tendências da Tendere – veja no dossiê O Futuro do Consumo), podemos ter uma noção do quanto as coisas estão mudando ano a ano.


A diferença imensa no lapso de pouco tempo entre um produto e sua próxima versão faz com que a nossa percepção do que é considerado vintage ou retrô se acelere. Ao relembrarmos certos produtos, o “saudosismo” de então mexe com nossas emoções. Por isso é que a notícia do lançamento do V3 causa tanta comoção. “Ah, mas eu tinha esse celular...”, ou então “Eu queria ter esse celular, mas não pude comprar na época...” são formas de evocar a memória afetiva de um produto relativamente recente, mas que parece vir de décadas atrás.


A diferença imensa no lapso de pouco tempo entre um produto e sua próxima versão faz com que a nossa percepção do que é considerado vintage ou retrô se acelere.

Busca de outros valores retrô - ou de valor algum

Segundo o sociólogo Michel Maffesoli, o retrô evoca a identidade dos consumidores e suas raízes. Autenticidade local, história e tradição são retomados em objetos que não só trazem a estética de outros tempos, mas também os valores. Na década de 1970, a evocação do design retrô-recente do pós-guerra se referia a valores tradicionais desses tempos.


No entanto, as gerações Y e Z (especialmente a última) têm mostrado um certo ceticismo em relação ao retrô baby boomer e geração X. Os “gen Z” abraçam seu próprio espectro de valores (diversidade, feminismo) e recusam qualquer abordagem mais conservadora. Isso é especial nos Estados Unidos e em outros países, inclusive o Brasil, em que a onda conservadora chegou com força aos governos nos últimos anos.


Desconfiança da geração Z em relação aos “bons valores”, ou ao “naquela época era melhor”. O governo Reagan (dois mandatos) durou de 1981 a 1989. Tradução no final do post.

A busca de valores de outros tempos, então, se confirma cada vez menos. Gerações Y e Z não podem ser convencidas de que houve um passado em que as coisas eram muito melhores do que o agora. Um passado mais recente, então, pode ser mais interessante de se buscar – despido dos valores, é claro, ficamos apenas com o saudosismo visual.


Gerações Y e Z não podem ser convencidas de que houve um passado em que as coisas eram muito melhores do que o agora.

Isso também tem a ver com o fato de que a geração Z se reapropria de coisas do passado sem se importar com peso de tradições associadas a ele. O vintage perde seu peso ligado a tradição e identidade e ganha ares de curiosidade e nostalgia que é nada além de estética. Quanto ao Motorola V3, a demanda do consumidor que o produto atende é apenas reviver o produto por meio de poucos elementos – o desenho quadrado e, em especial, a tela “flip” – já que o que teremos em mãos é a última tecnologia do sistema operacional, do hardware smartphone e da tão esperada tela flexível (que tem sido anunciada há pelo menos três anos pela indústria). Para o consumidor atual, este retrô parece ser suficiente.


Leia também

ROHENKOHL, Raquel Andressa Stefeni. Design retrô: um desafio da contemporaneidade em reconhecimento ao passado. Unoesc & Ciência – ACSA, Joaçaba, v. 2, n. 2, p. 147-153, jul./dez. 2011.


GREBOSZ, Magdalena. The “Retro” Trend in Marketing Communication Strategy of Global Brands. Journal of Intercultural Management, v. 7, n. 3, pp. 119-132, sep. 2015.


Tradução do quadrinho:

Ele triplicou o déficit nacional, mas tinha tanto CARISMA!


Ele apoiou o apartheid, mas era sempre APRESENTÁVEL.


Ele apoiou Saddam, mas ele sempre nos fez sentir BEM com nós mesmos!


Ele esmagou os direitos dos trabalhadores, mas era alguém com quem você poderia sentar e beber uma cerveja.


A Guerra nas Estrelas se tornou uma fantasia caríssima, mas ele tinha aquele OTIMISMO CONTAGIANTE!


Ele apoiou terroristas por toda a América Central, mas ele sempre olhava o melhor em cada um.


Ele desviou os olhos quando aliados de El Salvador estupraram missionárias americanas, mas ele tinha aquele HUMOR AUTODEPRECIATIVO!


Ele confundia filmes antigos com política internacional, mas ele sempre foi RÁPIDO NAS PIADAS!


Ele trocou armas por reféns e desviou dinheiro para cartéis de drogas, mas ele nunca perdeu sua DISPOSIÇÃO!