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A função da crítica de moda

Patricia Sant'Anna e Vivian Berto


Tony Ward haute couture inverno 2019/20

Temporada de semanas de moda brasileiras no ar, todos os holofotes vão para as quase 60 marcas que mostram seus desfiles ao público, imprensa e compradores. O jornalismo de moda cita desde já as peças must have, as "tendências" (em relação ao consumidor final) mais proeminentes, as modelos de destaque e é, claro, as críticas aos desfiles.


Ao contrário da arte contemporânea ou de outros setores culturais, como o cinema, o teatro, e a música, a moda carece de críticas consistentes e pertinentes. Alguns chegaram até a lamentar a aposentadoria de Cathy Horyn, do New York Times, por ela ser uma das únicas jornalistas que ainda escrevem criticamente sem medo de represálias - já incitou ódio (com causa e sem causa) de pessoas como Hedi Slimane (depois de uma crítica de 2004, ela não pôde mais entrar em nenhum desfile do designer...) e Oscar de la Renta, por exemplo. Talvez a imprensa norte-americana não tenha mais uma crítica do porte de Horyn.

Anunciantes.

O jornalismo sempre foi subsidiado (ou "patrocinado"), por fontes indiretas e privadas, ou seja, anunciantes. As vendas das publicações, por si só, não pagam os custos para produzi-las nem os lucros esperados. Com a internet, tanto a maneira de ler matérias quanto a de fazer publicidade tem mudado e tanto grandes publicações quanto grandes anunciantes perderam forças. Vimos até uma revista do porte da Newsweek fechar a sua edição impressa, ficando apenas com o digital.

Só que o jornalismo de moda ainda continua engessado em alguns pontos. O poder decisivo da revista de moda continua, se não como criadora, então como forte disseminadora de moda, tendências, opinião. A mesma força tem as marcas que anunciam em suas páginas. O problema da crítica de moda é, primeiro, que não há lugar para publicá-la, uma vez que quem fala sobre moda também anuncia marcas de moda. Em segundo lugar, o medo das represálias. Como Horyn não podendo assistir ao desfile da YSL de Slimane, ou, no Brasil, a jornalista Vivian Whiteman (na época da Folha de S. Paulo) sendo intimada por dois poderosos estilistas. Tratam-se, no caso, de duas pessoas com carreira consolidada no universo da moda. Mas quem quer perder a cabeça (e o emprego) ao criticar quem não se deve?

Isso não acontece de forma tão intensa em outras áreas da cultura, que conseguem ter bons críticos.

A crítica na arte.

No Brasil, um exemplo de crítica exemplar é Barbara Heliodora. Trabalhava para o jornal O Globo como crítica de teatro, aposentou-se em janeiro deste ano, aos 90 anos, após 50 de experiência em crítica. É conhecida, tanto no meio acadêmico quanto no jornalístico, pela integridade indiscutível, sem priorizar certas correntes por mera preferência ou beneficiar panelinhas do ramo. O que caracteriza o bom crítico, que Heliodora também é exemplo, é o amplo conhecimento e repertório que ele tem do assunto. A crítica de teatro é tradutora de 35 das 37 peças de Shakespeare, seu autor favorito, e foi professora de história do teatro por mais de 20 anos. Terror de alguns atores, autores e produtores, Heliodora é conhecida pelas críticas afiadas. Para quem gosta de teatro, muitas vezes uma crítica pode definir se a pessoa vai ou não assistir ao espetáculo. Uma crítica pode até mesmo arruinar carreiras em ascensão. Há um episódio da arte moderna brasileira que espelha bem esse papel decisivo do crítico em relação ao artista. Anita Malfatti (1889-1964) expôs sua obra em uma exposição quando recebeu uma crítica feroz de Monteiro Lobato (1882-1948) no jornal O Estado de São Paulo - ele era, na verdade, contrário aos modernistas em geral. Vale lembrar que o trabalho de Malfatti, que era uma pessoa extremamente sensível, nunca mais foi o mesmo. Na crítica de moda, o problema está quando não há consistência e o crítico alfineta mais o criador do que a obra. Esta crítica é quase tão nociva quanto a não existência de crítica. Há um papel do crítico que o torna indispensável. Não, não é para destruir sonhos, obras e carreiras. Ele desafia o criador, faz com que ele se supere a cada criação. Segundo o filósofo Lars Svendsen, quando lemos sobre moda nos jornais e revistas, somos tentados a acreditar que só existem obras primas no universo do design de moda. Coleções impecáveis, temas inspiradores aplicados da melhor maneira, ainda mais se se tratam de marcas famosas. A moda, desde o advento da alta-costura em meados do século XIX, sempre teve a intenção de ser arte. Cento e cinquenta anos depois, o que a impede de receber o mesmo tratamento que a arte, segundo Svendsen, é a falta de uma crítica séria. Não é para alfinetar nem para arruinar ninguém. É para o designer ou estilista, e a moda como um todo, crescer e se sofisticar visualmente. Por que, então, a moda não aceita crítica? No final das contas, segundo o critico gastronômico Anton Ego, personagem do desenho animado da Pixar, Ratatouille (2007), no quadro geral, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa que uma crítica dela em si.




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