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Vivian Berto de Castro


Fotografia de Guy Bourdin.

Só se passou a distinguir o pé direito do esquerdo do calçado no século XIX, nos EUA. As tiras de couro da Antiguidade que surgiram para proteger os pés tinham desde o princípio a preocupação com a ergonomia. Hoje, produto de moda, o calçado não pode corresponder apenas a padrões estéticos - conforto, usabilidade, a miscigenação brasileira, tudo isso deve ser considerado por quem trabalha nesse setor.


Entrevistamos Verônica Thomazini Passos, mestre pelo EACH-USP, sobre a arquitetura do calçado, o design e a ergonomia. Thomazini é fundadora da Passos Leather e pesquisadora do tema.


Tendere: Para o designer, quais os aspectos ergonômicos mais importantes a se considerar na construção do calçado?


Verônica Thomazini : A Ergonomia é a ciência que estuda critérios necessários para a adaptação de ambientes e objetos aos limites do corpo humano. Existe dentro dessa ciência um campo chamado "Ergonomia física", que estuda os aspectos anatômicos, antropométricos, fisiológicos e biomecânicos do homem e são de fundamental importância para os designers no desenvolvimento de um projeto de calçado.


T: É possível falar de, no contexto da população diversificada brasileira, em "tipos de pé", assim como existem "tipos de corpo"?


V: É possível sim. Assim como existem "tipos de corpo", existem "tipos de pés". Antes de relacionar o contexto brasileiro, podemos destacar duas maneiras comuns de se classificar os pés: formação do arco plantar (curvatura da parte interna dos pés) e comprimento dos dedos. No caso do arco plantar, as pessoas podem apresentar uma curvatura alta, média ou ausência dela, como o famoso "pé chato". Já a classificação pelo comprimento dos dedos ocorre de acordo com a formação dos três primeiros dedos a partir do dedo maior, podendo ser considerado um pé do tipo egípcio, quadrado ou grego. Todos esses tipos de pés são considerados normais, e além dessas classificações, algumas variáveis devem ser levadas em consideração como o perímetro e comprimento total dos pés.


No Brasil, qualquer um que queira atender ao nosso mercado precisa levar em consideração o fator miscigenação. O desenvolvimento de padrões de medidas para roupas e calçados, devido a grande diversificação dos biotipos brasileiros, é um grande e empolgante desafio que o país terá que enfrentar nos próximos anos.


Os calçados brasileiros, por exemplo, obedecem a medida chamada de ponto francês, que apresenta uma progressão de 6,66mm a cada tamanho. Ou seja 1 ponto francês = 6,66mm, pontanto, a diferença entre o número 35 e o número 36 será de 6,66mm, e assim por diante. Provavelmente a medida francesa foi adotada para atender uma maior parte da população, já que outra medida, chamada de ponto inglês equivale a 8,46mm. Mesmo assim, no Brasil, uma das maiores discussões do setor calçadista hoje é a falta de numeração quebrada, como o 37,5, por exemplo. São esses valores quebrados que revelam tamanha diversidade dos tipos de pés brasileiros. Dessa forma, essa medida europeia parece não atender mais a demanda nacional, além de estudos recentes que comprovam que os pés brasileiros, quando comparados aos pés europeus, são mais curtos e mais largos.


T: Em seu artigo "História do calçado: uma trajetória de design e ergonomia", ao lado do Prof. Dr. Antonio Takao Kanamaru, você afirma que a transição da confecção artesanal do calçado para a produção em massa, e consequente relação com a moda, fez com que o design muitas vezes perdesse características de conforto e se preocupasse mais com a estética. Você considera isso um padrão muito recorrente na indústria? Quais as vantagens, e desvantagens, em se trocar a ergonomia pela estética?


V: Eu prefiro dizer que o que mais ocorre hoje na indústria calçadista brasileira é o mal emprego da palavra design, e não me refiro apenas a parcela de 94% do setor, formada por micro e pequenas empresas fabricantes de calçados, que muitas vezes não possui capital para investir em novas tecnologias e atentar ao projeto de produto. Muito pelo contrário, ainda existem, na outra parcela dos 6%, empresas de médio e grande porte que não atendem ao design, e essas sim teriam condições de investir em melhorias para o projeto de produto. As empresas, e até mesmo o consumidor acabam confundindo design com estética, com moda, estilo... Nesse caso, gosto muito de citar uma frase de Tomás Maldonado, em que ele diz que "a estética é apenas um dos fatores, entre muitos, com os quais o designer de produtos trabalha, não sendo o mais importante e nem tampouco aquele dominante. Ao lado do fator estético, existem os fatores da produção, da engenharia, da economia e também dos aspectos simbólicos" (MALDONADO, 1958).


Portanto, quando falamos em design, falamos em projeto. O design irá englobar aspectos estéticos, mas, principalmente ergonômicos, de conforto, utilitários, adequados ao uso e a finalidade. Se a indústria se preocupa mais com a estética, por motivos simples como concorrência e lucratividade, algo está errado, e o consumidor é quem irá sofrer as consequências. A escolha de um calçado inadequado pode comprometer seriamente a saúde de um indivíduo. Neste contexto, é importante ressaltar, que o Brasil foi o primeiro país a certificar conforto para calçados. O grupo de normas ABNT NBR 14834 a 14840, visam avaliar e certificar com o Selo de Conforto, e a ABNT NBR 15159, avalia os diferentes tipos de pés existentes num mesmo número. A dificuldade encontrada ainda é que como essas normas não são obrigatórias, muitas empresas acabam não aderindo.


Outra questão interessante para expor é que nosso país apresenta laboratórios e centros tecnológicos completos e muito bem estruturados, prontos para atender o setor, que já é reconhecido internacionalmente pela produção calçadista, mas que para atingir um nível de excelência na produção deste artefato, ainda precisa de uma maior união entre os órgão representativos do setor, laboratórios e centros tecnológicos, universidades e os próprios empresários fabricantes de calçados. A empresa consciente que aplicar corretamente o design no desenvolvimento de produto e na produção, aderindo ao Selo de Conforto só tem a ganhar.


T: Quais são os processos da construção do calçado?


V: Dentro da produção artesanal e industrial, o calçado passa pelos mesmo processos basicamente. O que diferencia hoje uma produção da outra é a quantidade de pares produzidos e o maquinário, que consequentemente reduzirá o tempo de produção.


O processo ocorre da seguinte maneira:


a) Pesquisa engloba o levantamento e o tratamento de dados: o que será produzido, para quem será produzido, qual a finalidade e como tratar estes dados dentro de um tema de coleção (para quem trabalha com moda) ou como tratar estes dados dentro da identidade da marca (para quem trabalha com design).


b) Requisitos de projeto qual é o tempo de desenvolvimento do produto ou coleção, qual o custo previsto, quais os materiais serão utilizados, quais cores a serão empregadas (cartela de cores da coleção).


c) Desenvolvimento designer ou estilista trabalham em conjunto com os modelistas. Nesta fase, croquis são desenhados e ilustrados e a modelagem é feita a partir de fôrmas encapadas com fita adesiva, que recebem o desenho do modelista. Em seguida, a fita adesiva é destacada e dividida em partes que serão transformadas em moldes. É importante observar que nesta fase, algumas empresas já empregam técnicas mais avançadas de desenvolvimento como, modelos ilustrados em 2D por softwares de vetor ou em 3D por softwares de modelagem virtual tridimensional e modelagem feita diretamente por máquinas de corte a faca ou a laser.


d) Corte A partir dos moldes desenvolvidos na última fase, corta-se o material desejado para compor o cabedal (parte superior do calçado). Este processo pode ser feito com faca simples, com balancim (prensa) ou laser.


e) Pesponto ou Costura esta fase contempla três etapas - 1) Chanfro (etapa que afina a pele do couro no local onde a peça receberá dobra) - 2) Preparação (uso da cola no local chanfrado e dobra) - 3) Costura (costura do cabedal preparado com dobra).


f) Montagem a fôrma que recebeu a fita adesiva e o desenho agora é reutilizada para a montagem do calçado. Primeiro prepara-se a base da fôrma com uma palmilha de montagem, depois coloca-se o cabedal na parte de cima da fôrma e prega-se suas extremidades na base da fôrma, em cima da palmilha de montagem. O cabedal deve ficar bem justo na fôrma. Logo, prepara-se a base com cola para receber o solado. É importante ressaltar que o processo de montagem pode variar conforme o material do solado e o modelo que será produzido.


g) Pranchamento após receber o solado, é importante que o calçado continue na fôrma para que o modelo seja conformado. Geralmente, este processo leva de sete a 20 dias numa micro e pequena empresa, já nas médias e grandes, este processo demora segundos a partir de uma câmara de ar que aquece o modelo elevando-o à temperaturas altíssimas, e logo em seguida recebe um resfriamento brusco.


h) Limpeza Com o calçado pronto e fora da fôrma, ele passa por profissionais que avaliam qualidade, simetria e tiram as impurezas. Após este processo o calçados já está pronto para ir para a caixa, e para a loja.

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Não é só a moda que ganha os lugares dos museus, com o interesse cultural acerca do assunto crescendo cada vez mais. Os museus têxteis também existem, apresentando desenhos, padronagens e técnicas dos mais diversos povos ao redor do mundo e de tanto tempo quanto as fibras conseguiram resistir.



Em Washington, EUA


O Textile Museum em Washington, EUA, é o maior e mais antigo. O fundador, George Hewitt Myers deu sentido à sua obsessão por tecidos montando, em 1925, um museu com visita marcada. Após sua morte, nos anos 1950, o museu começou a crescer com tecidos vindos dos mais diversos lugares da Ásia e África. Atualmente, o museu conta com a biblioteca Arthur D. Jenkins com 20 mil títulos somente sobre o tema. O Textile Museum fica no mesmo prédio da Albert H. Small Washingtoniana Collection, que contém documentos da história da capital norte-americana, e ambos são parte da George Washington University.



Em Toronto, no Canadá.


Unir o antigo o design de hoje é uma preocupação desses museus. O Textile Museum do Canadá, fundado em 1975. O museu tem mais de 13 mil itens e é o único do país especializado no tema e os exibe em exposições rotativas.



Em Tilburg, na Holanda. O Textiel Museum é o mais recente, fundado em 2008. O museu fica localizado em um edifício (uma ex-fábrica de tecidos) do final do século 19 que, além de ter sido restaurado, ainda ganhou como entrada um imenso cubo de vidro com estrutura de metal. É onde fica o foyer, o café, a loja, locais para workshops e os auditórios do museu. Só a arquitetura do espaço, unindo o século retrasado e o contemporâneo, já vale a visita! As exposições temporárias abrangem tanto a história dos tecidos e da indústria têxtil quanto os tecidos e fios na arte moderna e contemporânea. Grandes museus que são roteiro certo para as exposições de moda também já apresentaram tecidos, como é o caso do Museum of Modern Art (Nova York) e, com mais intensidade, do Victoria and Albert Museum (Londres), que tem seu próprio arquivo de têxteis. post revisado em janeiro de 2019.

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