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Quem disse que moda e literatura não conversam? + lista de obras essenciais para você ler

Por Patricia Sant’Anna

 

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Dizem muito que brasileiro não gosta de ler. Mas conheço muita gente que gosta. Uma vez dando aula, perguntei em sala de aula se os alunos gostavam de ler, e minha surpresa ao ver menos de um terço da sala de aula levantar a mão foi inconteste. Afinal, não estava em um curso de exatas, mas de comunicação… sim, isso mesmo.

Um professor faz essa pergunta em uma sala deste tipo apenas retoricamente, para ‘puxar papo’ com os alunos no começo do semestre… bem, com o resultado fiquei chocada, desestimulada e, de certa forma, com pena destes alunos, afinal, só eles tinham a perder com isso!

Ler não só aquilo que parece “útil” à primeira vista

Bem, ler um blog é um passo para gostar de ler. Mas ler literatura e poesia é dar voz a cantos de sua mente e sentimentos que você nem sabia que existia, coisas que só são verbalizadas pelos escritores. Você descobre formas de expressar, possibilidades de estar no mundo, vivências que nunca imaginou, mas, que de repente, já sentiu… mas não sabia como verbalizar. Literatura deixa tudo mais rico.

Sabemos que não são todas as famílias e escolas que incitam as crianças e jovens a ler. Portanto, vamos dar aqui algumas dicas de como pegar gosto. Não tenha preconceitos quanto ao suporte. Papel, tablet, celular, edição de luxo ou popular, xerox ou original, o que importa é o texto.

1. Primeiro de tudo: aprenda a se concentrar. Sei que estamos na época de ser multitarefas, mas o grande prazer da leitura é se desconectar do que está em volta e entrar em um outro mundo. Portanto, busque se desligar do que está em volta. Comece por textos curtos: revistas, artigos, contos e poemas. Não tenha medo de escrever anotações, pensar em voz alta ou suspirar. Pode ser best seller também, é um jeito de aprender a se concentrar.

2. Não escolha a leitura de maneira funcional, isto é, só ler aquilo que você vai aplicar em sua vida profissional ou pessoal. Abra-se a ler para fora e seu universo, aí é que há riqueza na leitura. Se esse conhecimento será um dia útil são outros quinhentos. O prazer é algo do momento, ligado ao agora, não ao futuro. Quando estiver lendo, viva o momento que está em suas mãos.

3. Ler precisa virar hábito, daqueles que se a gente não faz, sente falta. Portanto, somente tornando-o cotidiano você vai compreender do que estamos falando… entende?

 

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4. Uma coisa que eu acho bastante problemática é quando alguém vira e fala que determinado autor é chato e isto viraliza… e pior, vira desculpas para não ler esse ou aquele autor. Independente do que os outros falem, não deixe de ler pelos outros e forme você a sua opinião.

Dica: às vezes não é que o autor é chato, é que quem leu não entendeu. Tem gente que não se sente desafiada, mas sim indignada. É estranho, mas é mais comum do que se imagina. O fato de um livro ter ideias complexas, difíceis, não faz dele um livro chato, e sim desafiador.

5. Ler um texto acadêmico é diferente de ler um texto de literatura (seja prosa ou poesia). O prazer obtido também é diferente. Para quem está entrando na faculdade, saiba: quanto antes você tomar gosto e compreender como é construído esse tipo de comunicação com o leitor, mas rapidamente terá prazer ao ler.

Dica de ouro: textos acadêmicos são escritos para pares (para pessoas que tem o mesmo nível do pesquisador/pensador), portanto, são leituras de desafio, você corre atrás do autor e não ele atrás de seus leitores… Ele definitivamente não está escrevendo um livro didático, ou para ensino fundamental, jamais se esqueça disso. Ele está doando uma parte do conhecimento que ele construiu em sua vida para o leitor. Então ler e compreender o contexto da escrita é o mínimo para poder compreendê-lo.

Ler é um ato contínuo para quem faz pesquisa, mas a leitura de literatura abre pensamentos e sentimentos que muitas vezes nem sabemos que existiam dentro de nós.

Por isso, é sempre importante termos momentos para sorver esse tipo de arte. Em prosa ou poesia, nos formatos mais tradicionais ou nos mais experimentais, seja antigo ou contemporâneo, um clássico ou um best seller, ler é sempre uma aventura que nos traz muitas novas sensações ou ressignifica antigas.

O vestuário como figurino dos personagens ajuda na sua construção. O vestuário como metáfora é poderoso. A interação social e também introspectiva do personagem se dá a partir deste universo descritivo de sua aparência, que Roland Barthes tão sagazmente chamava de ‘vestuário-palavra’.

Minha lista preciosa de literatura:

Segredinhos que ajudaram a minha formação para a pesquisa, as tendências, a moda e a vida:

1) Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Grey
2) Machado de Assis, Dom Casmurro
3) Virginia Woolf, Orlando: uma biografia
4) Gustave Flaubert, Madame Bovary
5) Joaquim Manuel de Macedo, A moreninha
6) Jack Kerouac, On the road
7) Charles Baudelaire, A passante (poema)
8) Charles Baudelaire, O pintor da vida moderna
9) Honoré de Balzac, Traité de la vie elegante
10) Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos
11) Truman Capote, Bonequinha de luxo
12) F. Scott Fritzgerald, O grande Gatsby

E tem alguns posts bacanas e que sugerem outras leituras aqui e aqui.

Boa leitura!

Moda Documenta 2015

teaser 03_ouvintes_Moda Documenta 2015

Mais um bom evento de moda em SP para você colocar na agenda esse semestre: nos dias 12, 13 e 14 de maio acontece o Moda Documenta, seminário voltado para pesquisa em moda, história, museu e acervo. Estão abertas as inscrições para participar como ouvinte e assistir a debates, mesas-redondas, e aos trabalhos acadêmicos e pôsteres digitais de alunos. O evento vai ser na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo.  A edição de 2015 propõe o tema Traje e memória: acervos, narrativas, design e tecnologias.

A Tendere vai estar no Moda Documenta: Patricia Sant’Anna, diretora de pesquisa e fundadora da Tendere (Doutora em História da Arte, Mestre em Antropologia Social e bel. em Ciências Sociais, todos pela Unicamp, e especialista em Museologia pelo MAE-USP), participará da mesa temática Moda e Arte no Museu: encontros e desencontros, ao lado de José Maria Paz Gago (Universidade de Corunha), Ricardo Oliveros (Instituto Elos), com mediação de Simone Mina (FASM).

Confira a programação completa aqui.

Entre no site e faça a sua inscrição!

Hora de usar guayaberas

guayaberaGuayabera: elegância masculina direto da América Central. Foto: http://guayaberascubanas.com/

 

Melhor para os climas quentes, impossível. As guayaberas – típicas camisas provenientes da América Central – são um item de vestuário com valor simbólico e histórico muito importantes para a região, e que podem despontar em outros lugares a partir de 2016 e 2017.

 

prince-harryO príncipe Harry em uma visita à América Central. Foto: Popsugar

 

As guayaberas podem ser de mangas curtas ou compridas. Os únicos mandamentos são, além do tecido natural leve (algodão ou linho), ter quatro bolsos frontais e duas linhas verticais que podem ser plissados ou então um bordado.

 

luis-echeverriaLuis Echevarría e a rainha Elizabeth em 1975. Foto: www.historymiami.org

 

Não se sabe muito bem onde surgiu. Pode ter sido em Cuba, ou no México, há que ainda aponte as Filipinas. Uma espécie de “lenda” que conta a origem da guayabera vem de Cuba. A esposa de um agricultor costurou uma camisa mais fresca para o clima do país e com quatro bolsos para que seu marido pudesse guardar goiabas (guayabas). Foi no México que a manufatura da camisa ficou reconhecida, mais especificamente em Merida, lá pelos anos 1970. O próprio presidente do México na época, Luis Echevarría, promoveu o uso da guayabera.

 

Hemingway-GuayaberaErnest Hemingway foi outro notório usuário da guayabera. Foto: marshallmatlock.com

Após a revolução cubana, a guayabera caiu em desuso na ilha, mantendo-se apenas no interesse de turistas. Mas no restante da América Central – assim como no sul dos Estados Unidos, impactados culturalmente por essa região – a guayabera ainda é usada (mesmo que seja, muitas vezes, fabricada na China…). Chega a ser um elemento tão importante que chefes de Estado a vestem quando visitam países da região.

 

apec-mexicoAté o na época presidente George W. Bush vestiu guayaberas num encontro da Apec (Asia-Pacific Economic Cooperation), no México. Foto: www.nydailynews.com

Se Cuba tende a estar cada vez mais em evidência nos próximos anos (já está retomando uma aproximação com os Estados Unidos depois de mais de 50 anos, e se mantém em crescimento e é apontada como um dos 20 países do futuro pelo Euromonitor, como mostramos no último Seminário de Tendências), nada mais justo que revisitar seu elemento de vestuário mais tradicional. E uma camisa leve, clara, elegante – tem como ser mais a cara do Brasil?

Vivian Berto

A moda unissex

Nas semanas de moda masculina do hemisfério norte, modelos meninas foram colocadas estrategicamente em meio aos desfiles masculinos, na Giorgio Armani e na Gucci, vestindo praticamente as mesmas roupas que os meninos.

A experiência unissex chegou ao varejo. Será lançado na Selfridges um projeto temporário, entre março e abril, chamado Agender – um departamento unissex na loja. Manequins serão retirados, expondo as roupas de forma mais “neutra”. As marcas para esse hibridismo foram bem selecionadas: a japonesa Comme des Garçons e a belga Ann Demeulemeester entre elas.

 

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A última campanha de menswear da DKNY mostrou Cara Delevigne entre os meninos, usando o um costume preto, com camisa e gravata, e tênis nos pés – mesmo look que os garotos ao seu redor vestem.

Os red carpets norte-americanos desde o início do ano têm mostrado o mesmo caminho. Tanto le smoking quanto variações, como o macacão, mesmo que bem sensual e feminino, traz muito do universo masculino para um ambiente habituado a vestidos cheios de brilho, saias amplas e fendas e decotes matadores.

Podemos dizer que um dos grandes representantes foi David Bowie em 2013, ano de seu “comeback”, lançando álbum novo após muito tempo afastado dos holofotes. O primeiro clipe do álbum The Next Day, como você deve se lembrar, foi The Stars (Are Out Tonight), com participação da atriz, modelo de androginia, Tilda Swinton. Não só Bowie e Swinton são muito semelhantes, mas há uma troca mais intensa de gêneros: no clipe, volta-se para o passado do casal e o jovem Bowie é representado pela modelo Saskia de Broun e a jovem Swinton, pelo modelo Andrej Pejic.

 

O retorno do unissex

Vale lembrar que a moda unissex está longe de ser uma novidade, embora muitas vezes seja alardeada como tal pela mídia. O exemplo mais clássico é o le smoking de Yves Saint Laurent, lançado em 1966 – mas que ficou mesmo imortalizado na fotografia de Helmut Newton, de 1975.

Saint Laurent abriu horizontes para que as mulheres usassem roupas mais masculinas, como calças e paletós. É claro que o terno e o smoking já haviam sido usados por mulheres antes (pense em Marlene Dietrich) mas eram sempre roupas originalmente masculinas usadas por uma mulher. Com Saint Laurent, o smoking foi feito para o corpo feminino.

 

helmut_newton_ysl-1975Le Smoking imortalizado por Helmut Newton.

 

Podemos lembrar alguns exemplos bem icônicos, como Diane Keaton no filme Annie Hall (1977 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), de Woody Allen. O figurino era assinado por Ralph Lauren, originalmente um designer de gravatas masculinas que sugeria looks masculinos para as mulheres desde o início dos anos 1970. As roupas da personagem Annie não chegam nem perto do tradicional feminino – muito oversized, sobreposições, gravatas largas, chapéu.

 

Annie-Hall-23Diane Keaton como Annie Hall: um clássico do estilo unissex.

 

No fim dos anos 1980 e início dos 1990 o unissex se consagrou. Os designers japoneses Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto vestiam homens e mulheres da mesma forma, seguindo, inclusive, a modelagem ampla oriental (reparou como Yamamoto recuperou esse “espírito” em suas últimas coleções femininas?).

 

louis july 1993Campanha da Louis Vuitton de 1993.

A Louis Vuitton, quando começou seu rebranding de marca de malas de viagem de luxo para uma marca de moda, fez campanhas com homens e mulheres muito semelhantes em ternos com padrões da grife. Na mesma época, tanto a Giorgio Armani quanto a Gucci usavam o look unissex – os ternos cinza rato de Armani erma tanto para homens quanto para mulheres. O estilo heroin chic (imortalizado por Kate Moss em início de carreira e a fotógrafa Corinne Day) também tem muito de unissex: modelos muito novas, muito magras, quase indefiníveis em alguns momentos como meninos ou meninas.

Giorgio-Armani-campanha-1980sCampanha da Giorgio Armani do início dos anos 1990.

 

Um modelo de beleza muito difundido da época foi a atriz Uma Thurman – alta, de ombros largos, que transita muito bem entre o feminino sexy e o masculino. A Calvin Klein também bebeu muito nessa fonte: pense nas campanhas do perfume CK One – com fragrância, é claro, unissex.

 

Premiere of "Final Analysis" in Los AngelesUma Thurman no início dos anos 1990.

Não confunda…

O look feminino ou masculino unissex não significa nada em termos de orientação sexual, ao contrário do que se pode pensar. Uma coisa é se vestir de forma híbrida, outra é ter atração por pessoas no mesmo sexo, sendo os dois lados independentes. Não é possível colocar, portanto, filmes como Azul é a Cor Mais Quente (2013) e Quero Voltar Sozinho (2014) para se falar de androginia ou unissex. Ou, como diria este quadrinho que circulou nas mídias sociais…

fanpage Iconoclastia IncendiáriaPegamos esta imagem da fanpage Iconoclastia Incendiária.

Por que o unissex está em evidência

Atualmente, os desfiles masculinos, ações como a da Selfridges e outras que misturam gêneros não podem ser consideradas “inovadoras” ou “revolucionárias” – já usamos muito o look unissex em outros momentos da moda. O que vemos é um retorno, marcas que já têm fizeram isso no passado refazendo, um novo interesse por não definir sexos. Quando a moda masculina é colocada tão em evidência como agora, é claro que as mulheres vão querer aproveitar para vestir seu terno, gravata e talvez até um belo smoking para a festa.

Patricia Sant’Anna e Vivian Berto

De Watson a Arquette: o feminismo na mídia

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Janeiro de 2015: premiação do Golden Globes. As atrizes Tina Fey e Amy Poehler fizeram uma apresentação com ironia ácida e deliciosamente feminista. Falaram do papel de Patricia Arquette no filme Boyhood (que demorou 12 anos para ser filmado): “ela provou que ainda há grandes papéis para mulheres com mais de 40, desde que você seja contratada antes dos 40”; ou então a comparação entre George Clooney e sua esposa Amal Alamuddin – descrevendo todo o currículo da advogada libanesa radicada na Inglaterra (que incluía defender Julian Assange, do Wikileaks, e ser conselheira do ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan), completaram dizendo que Clooney é quem receberia o prêmio pela carreira.

 

 

Em fevereiro, a cerimônia do Oscar. A veterana atriz Patricia Arquette, em seu discurso após ganhar a estatueta, homenageou todas as mulheres e pediu igualdade de direitos e de salários para homens e mulheres – aplaudida pela também veterana e consagrada no cinema Meryl Streep.

 

 

No mesmo evento, algumas atrizes endossavam o movimento #AskHerMore – que pedia para que imprensa não perguntasse para elas apenas sobre vestido, cabelo, maquiagem e dietas, mas perguntas mais profundas sobre os papéis no cinema e carreira, assim como são as perguntas feitas para os homens. Emma Stone, Reese Witherspoon (que afirmou “somos mais que nossos vestidos”), Cate Blanchett e Julianne Moore são algumas das adeptas.

 

tumblr_mzn18te0jZ1rpubqio1_250“Vocês fazem isso com os homens?”, pergunta Blanchett. Tiramos do site do The Representation Project.

 

Com o empoderamento feminino (um neologismo que vem do inglês empowerment, ou seja, tornar-se poderoso), o feminismo está na moda. Até pouco tempo atrás, não era uma palavra proferida por muitas mulheres, porque ficou em parte entendida como uma reivindicação sem sentido de mulheres revoltadas que, acima de tudo, detestam homens e/ou querem dominá-los ou eliminá-los. Com o aparecimento na mídia de celebridades como Emma Watson, Jennifer Lawrence, Lena Dunham e até Miley Cyrus, o feminismo tem sido enxergado de uma nova maneira. Com essas defensoras, ele se torna mais “palatável” para ser consumido, retirado dos estereótipos aos quais ficou preso. Vale lembrar que o feminismo está longe de ser novidade, tendo suas raízes no século XVIII e seu florescimento nos anos 1950.

A questão do empoderamento feminino e do próprio feminismo tomou a mídia nos últimos meses, chegando mesmo a eventos em que ele seria pouco provável, como a entrega do Oscar. Em um evento em que o que brilha é a indústria das celebridades e a de moda acoplada a elas, defender uma menor preocupação com o que as atrizes vestem é um movimento e tanto.

O discurso da atriz britânica Emma Watson na ONU disse muito sobre esse momento de revalorização do feminismo. A campanha que a atriz, que também é embaixadora da boa-vontade na ONU, promove é a He For She, que convida homens a se unirem ao feminismo para garantir direitos iguais a homens e mulheres – e isso inclui direitos ao próprio homem em “coisas de mulher”, como demonstrar sensibilidade e fraqueza (a mente por trás da He For She é Elizabeth Nyamayaro, assessora sênior na ONU).

 

 

O feminismo na mídia não se estendeu apenas às celebridades. No Super Bowl, chamou a atenção o comercial do absorvente Always. Nele (se você não assistiu, vale a pena!), tenta-se mostrar como os estereótipos de gênero, que colocam as mulheres como menos importantes ou menos competentes que os homens, são construídos ao longo da vida – meninas pequenas não tinham essa ideia na cabeça. E tudo isso num evento esportivo, que poderia ser considerado “masculino” demais para um comercial como esse.

 

 

Com o feminismo na moda, vale pensar em qual é o impacto na vida das mulheres e dos homens e no seu lifestyle, as relações no mercado de trabalho, e também como se comunicar (através de conteúdo ou de publicidade) da melhor maneira com o público feminino. No Brasil, se pensarmos em campanhas recentes como da Skol ou do Ministério da Justiça, ou da mesma Always com Sabrina Sato, podemos pensar de estamos nos comunicando com as mulheres da maneira correta (aqui fica evidente que a resposta é não).

Vivian Berto

Update: Campanha “A violência não pode ser maquiada”, da Avon no Brasil.
E o site Central Mulheres, da mesma empresa]

Vestir branco no réveillon

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Não importa onde passemos as festividades do fim de ano: não tem como escapar em usar branco nessa época! Algumas variações são “permitidas”, como tons mais escuros como o off-white, ou combinar branco com cores claras e leves como o amarelo.

Muitos países têm seus “rituais” específicos nessa época do ano, alguns com mais peso para essa data do que outros, mas vestir-se inteiramente de branco é algo tipicamente brasileiro. A raiz está nas religiões afro-brasileiras – em especial as com maior número de devotos, o candomblé e a umbanda – que usam o branco em rituais. Ritual, na verdade, é o que fazemos todos os anos com o réveillon, aplicamos a ideia de passagem, de renovação, para esse dia.

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Para o candomblé, o dia da passagem de ano também é dia de Iemanjá – não por coincidência, muitos brasileiros procuram o litoral para seu “rito de passagem”.

Separamos no nosso board de Datas e Comemorações peças e looks com a cara do fim de ano nacional.

Feliz ano novo e um ótimo 2015!

Vivian Berto

Editoriais de Natal

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Na edição atual da Vogue japonesa. Foto daqui.

As edições de dezembro de revistas de moda, no mundo todo, não conseguem fugir das referências natalinas (ou então de festas de fim de ano, mas aqui vamos falar especificamente para o Natal). Se você acompanhar edições mais antigas de revistas como Vogue e Harper’s Bazaar, mesmo dos anos 1950 e 1960, vai ver que essas referências estavam lá: o uso do vermelho, às vezes com detalhes em branco que lembrem o bom velhinho, caixas de presentes, laços, dourado, árvores de Natal, neve (afinal, estamos falando do hemisfério norte).

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Capa da Vogue dos anos 1960 – edições de dezembro vêm com referências natalinas. Foto daqui..

Por ser uma das épocas do ano que mais aquece as vendas de produtos de moda, nada mais justo que valorizá-lo em editoriais e lookbooks.

A árvore de Natal é uma das referências que mais aparecem. Seja ela inteira, ou então em apenas alguns elementos – bolas, folhas características desse tipo de árvore, luzes. Alguns podem apresentar a árvore de maneira criativa e inteligente: vale apostar nesse formato!

 

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A árvore de Natal não precisa ser literal.

O Natal do hemisfério norte é apresentado através de elementos típicos. A “rainha das neves” aparece em alguns, assim como renas. Contos de Natal como O Quebra-Nozes também – achamos inesquecível essa corruptela no editorial da W Magazine de 2012 com a atriz Marion Cotillard!

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Editorial da W Magazine de dezembro de 2012: um Quebra-Nozes masoquista.

Presentes também são mostrados em muitos editoriais – afinal, mais do que comprar para nós mesmos, distribuímos presentes para amigos e familiares.

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Presentes da Hermès, 1976 – foto daqui.

Veja abaixo algumas ideias de editoriais (também tem mais no nosso board do Pinterest de datas especiais!)

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Vivian Berto

9 museus de moda para você visitar

Repertório de moda é algo que vamos construindo ao longo do tempo, quanto mais conhecemos e mais aprendemos sobre a profissão. A história da moda presta um papel importantíssimo no repertório, e qualquer designer que se preze deve, sim conhecê-la a fundo. Como iremos criar se não soubermos o que foi criado antes? Se determinado período da moda é referência para uma tendência (os anos 70, por exemplo), ter um vasto conhecimento prévio ajuda a dar referências mais ricas à criação.

Pensando nisto, livros e cursos sobre história da moda são essenciais, mas, no entanto, é nos museus de moda que está a oportunidade de conhecer mais, ver as roupas e acessórios de frente. Além disso, há museus tão importantes – como o Metropolitan ou o Victoria & Albert – que qualquer exposição terá impacto direto nas próximas tendências de moda.

Por isso, em sua próxima viagem de pesquisa, não deixe de conhecer esses museus…

museus de moda
Exposição Savage Beaty no Met.

1. O Costume Institute do Met – em Nova York

O Costume Institute começou como o Museum of Costume Art, em 1937. Foi quase dez anos depois que o museu se uniu ao Metropolitan com o nome de Costume Institute. Já teve Diana Vreeland como consultora até sua morte, em 1989.

O Costume Institute realiza uma grande exposição por ano (com direito ao famoso baile de Gala de inauguração, cenário importante do tapete vermelho norte-americano). Quem não se lembra de Superheroes: Fashion and Fantasy (2008), Schiaparelli and Prada: Impossible Conversations (2012), e principalmente, Alexander McQueen: Savage Beauty (2011)? A exposição que homenageou McQueen (que havia falecido em abril do ano anterior) foi o recorde de público da instituição. Atualmente, o couturier norte-americano Charles James é o tema da exposição. Em 2015, prepare a agenda para visitar a exposição do ano: Chinese Whispers: Tales of the East in Art, Film, and Fashion, sobre a influência chinesa na moda ocidental.

Tudo o que é exposto no Costume Institute do Metropolitan Museum, de Nova York, tem impacto certeiro na moda. Mesmo que não vá visitá-lo sempre, vale a pena ficar atualizado com as exposições em cartaz do museu.

Confira, ainda, o excelente acervo virtual do Costume Institute neste link.

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Este ano, o Victoria and Albert recebeu exposição homenageando o fotógrafo Horst.

2. Victoria and Albert Museum – em Londres

Moda, vestuário e têxteis não é exclusividade no acervo do V&A, que em em seu acervo diversas formas de artes decorativas (cerâmicas, porcelanas, móveis e joias, dentre outras). Foi fundado no século XIX com itens que foram mostrados na Grande Exposição (aquela realizada em Londres, em 1851,com o objetivo de mostrar o trabalho industrial de “todas as nações”).

O acervo de artes decorativas do museu está aberto permanentemente com itens cobrindo mais de 5 mil anos de história, segundo a assessoria de imprensa do museu.

Mas são as exposições de moda que mais o tornam célebre. David Bowie Is (2013), que já veio para o Brasil através do MIS, é uma delas. Até janeiro, você pode ver Horst: Photographer of Style e, até março, Wedding Dresses (1775-2014). Para o ano que vem, o V&A receberá a célebre exposição do Met, Alexander McQueen: Savage Beauty.

Assim como o Met, as exposições do V&A têm impacto grande em tendências de moda.

museus de moda
A cidade de Bath é uma importante referência para a moda: você deve visitá-la ao menos uma vez!

3. Fashion Museum – em Bath

Localizado em uma cidade que era um balneário luxuoso no século XIX – Bath – o Costume Museum foi inaugurado em 1963, após a designer e colecionadora Doris Langley Moore doar seu acervo para Bath. Em 2007, o Costume Museum virou Fashion Museum. Aliás, Bath é uma cidade não tão falada no Brasil, mas tão essencial para conhecer quanto qualquer grande capital da moda.

A exposição hoje em cartaz é Georgians (até 16 de janeiro de 2016), que fala do vestido essencial na moda do século XVIII e sua influência na moda contemporânea, desde McQueen até Westwood. A exposição conta com 30 vestidos georgian originais. A partir do final de janeiro do ano que vem, entra em cartaz a Great Names of Fashion, contando um pouco da História da moda no século XX através de obras dos grandes criadores.

museus de moda
O museu do FIT tem a curadoria de Valeria Steele.

4. Museum do Fashion Institute of Technology (FIT) – em Nova York

O Fashion Institute of Technology é uma das escolas de moda mais renomadas dos EUA. O museu da instituição é uma grande referência de moda, e tem como curadora Valerie Steele, importante acadêmica do universo da moda.

O museu tem um acervo de mais de 50 mil peças de vestuário e acessórios, que datam desde o século XVIII.

A exposição em cartaz desde o início desde mês não poderia ser mais atual: Faking It: Originals, Copies and Counterfeits fala sobre a cópia autorizada e não autorizada de roupas de criadores consagrados, como Worth e Chanel. Em 2015, você poderá ver por lá Yves Saint-Laurent + Halston: Fashioning the 70s.

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Santiago, no Chile, surpreende com um ótimo museu de moda.

5. Museo de la Moda – em Santiago

Localizado em Santiago, no Chile, o Museo de la Moda é o grande representante latino-americano (e, na verdade, do hemisfério sul como um todo), com acervo e exposições riquíssimos. Foi criado em 1999 por Jorge Yarur Bascuñán, herdeiro de grandes produtores de algodão do Chile.

Reformado em 2007 para melhor abrigar o acervo, vale muitíssimo a pena a visita – o acervo tem mais de dez mil peças. Destaque para a parte do acervo referente ao futebol, tão amado pelos chilenos quanto o é para os brasileiros.

 

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O museu parisiense foi concebido como um museu de arte, mas acabou se transformando num museu de design e, mais tarde, de moda e têxteis.

6. Museé de la Mode (Palais Galliera) – em Paris

Em 1878, a duquesa de Galliera anunciou que gostaria de deixar sua coleção de arte à disposição da França, com a condição de que o faria em um museu especialmente construído para isto. O museu foi concluído após a morte da duquesa, e o foco passou a ser o design industrial. A moda seria um caminho que ele trilharia em seguida.

Com um vasto acervo que data desde o século XVIII, o museu não tem exposições permanentes – quando não tem alguma em cartaz, ele fica fechado para o público. Por isso, para visitá-lo, é necessário verificar a agenda antes!

Até maio de 2015 fica aberta a exposição Fashion Mix, que faz um tributo aos estilistas estrangeiros que fizeram a história da moda francesa. Para 2015, a homenageada é Jeanne Lanvin, unindo o acervo do museu com o da casa Lanvin – e com direção artística do próprio Alber Elbaz.

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O FTM foi fundado por Zandra Rhodes em Londres, e tem um amplo programa educacional.

7. Fashion and Textile Museum (FTM) – em Londres

Localizado em Londres, esse museu vai transportar o visitante pela história da moda através de seus tecidos. Também fala de têxteis em outros contextos, como decoração. Foi fundado pela designer Zandra Rhodes.

Tem um amplo programa educacional, oferecendo cursos e workshops em áreas mais práticas e criativas da moda. Um de seus cursos é uma formação intensiva em moda, de 1 ano, associado à universidade de Newham.

O tricô está na ordem da vez no FTM – até janeiro, você pode ver Knitwear: Chanel to Westwood. Também está em cartaz a exposição de papéis de parede da Watts, tradicional empresa britânica, de 1870 até hoje. A partir de 2015, o Bohemian Chic será tema de exposição no museu. Marque na agenda!

 

museus de moda
O acervo de um apaixonado por sapatos virou um museu rico no Canadá.

8. Bata Shoe Museum – em Toronto

O Bata fica em Toronto, e é uma preciosidade da história da indumentária, e não apenas da moda. Como sapatos duram mais que têxteis e vestuários, o acervo do museu conta com peças de milhares de anos atrás.

O museu tem esse nome por causa do empresário do ramo calçadista Sonja Bata, que costumava colecionar sapatos de todos os lugares onde viajava. A Fundação que leva o nome Bata foi criada em 1979 para pesquisa sobre calçados. O museu, aberto ao público, abriu as portas somente em 1995.

museus de moda
Não deixe de conhecer este museu em Salvador – imperdível.

9. Museu do Traje e do Têxtil – em Salvador

Parte do Instituto Feminino da Bahia, o acervo do Museu do Traje e do Têxtil começou em 1933. Mais do que falar de moda, explorar a sociedade baiana através do vestuário é um dos objetivos. O foco são peças do século XIX, com roupas como vestidos de noiva, trajes eclesiásticos, roupas de criança e inúmeros acessórios.

Sem dúvida uma grande referência para o Brasil – não deixe de visitá-lo em Salvador!

Aguarde: em 2015, preparamos uma série sobre museus de moda para você adentrar mais nesse universo!

Conhece algum ótimo museu de moda pelo mundo? Compartilhe com a gente!

Vivian Berto

Moda e religião

moda e religião
Jovens muçulmanas querem ser contempladas pelo universo da moda. Foto: vídeo Somewhere in America

 

A moda é expressão de um Estado laico – e se entende como espaço laico. Quando ela propõe todos os tipos de revelação do corpo (fendas, transparências, comprimentos curtíssimos), e quando explora religiões em coleções ou editoriais de moda, ela se coloca dessa maneira. O que acontece, então, quando a moda deve encontrar a religião de determinado público para poder atendê-lo?

O Business of Fashion publicou, na semana passada, um post explicitando a “oportunidade perdida” da moda para o mundo islâmico. Marcas de moda ocidentais poderiam atender melhor as clientes muçulmanas, inclusive as que vivem em países não-muçulmanos como EUA e os países da Europa Ocidental e têm influência constante da moda. As consumidoras muçulmanas têm, então, que adaptar roupas ocidentais para seus padrões e gostos.

Neste cenário, a internet e os blogs novamente vêm refletir os desejos dos consumidores. Blogs de moda muçulmana se tornam cada vez mais populares, dando a essas mulheres opções de como montar looks que unam linguagem de moda aos princípios da religião. Também têm seguidores que não são muçulmanos e se encantam por este estilo. Neste post em que sugerimos alguns blogs de moda para ampliar horizontes, falamos de alguns de garotas muçulmanas.

 

moda e religião
Mipsterz: muslim hipsters. Foto: vídeo Somewhere in America

 

Adentrar nesse universo não é tarefa simples. Os muçulmanos não são apenas uma religião, e cada etnia e região do mundo tem suas particularidades. São cerca de 1,8 bilhão de muçulmanos no mundo todo. O grande número de jovens (43% estão abaixo dos 25 anos) os leva a querer estar dentro do mundo capitalista e buscar individualidade através do consumo sem necessariamente conflitar com seus valores.

Neste contexto, surgem os Mipsterz (sim, Muslim Hipsters). Encabeçado principalmente pelas mulheres, esse movimento quer unir a individualidade dos jovens e o empoderamento feminino à cultura muçulmana. O vídeo Somewhere in America mostra quem são essas garotas.

No Brasil, as religiões evangélicas exigem certos códigos de vestimenta que a moda deve se adaptar. É um mercado imenso, dado o grande número de evangélicos no país – 25% da população -, se sobrepondo, cada dia mais, à maioria católica. Muitas marcas se posicionam como “moda evangélica” para atender especificamente esse público, em especial o feminino: não abusar dos decotes ou transparências, obrigação (na maioria) em usar saias, e que não sejam de comprimento muito curto.
Cada igreja tem seus próprios códigos e podem ir dos mais severos aos mais brandos.

moda e religião
Blogueiras e influentes – foto do Cristã e Chic.

 

Existem, é claro inúmeros blogs que tratam do tema – podemos citar o Crente Chic, Cristã e Chic e Passarela Estreita, caso você esteja procurando por referências. Alguns deles, além de falar de moda, demonstram quais são os princípios cristãos que devem ser seguidos e funcionam quase como um diário e confessionário do dia a dia da menina cristã.

Na maioria das vezes, a relação entre a moda e as religiões evangélicas não é uma relação “engessada”, autoritária, de use isso ou use aquilo; pode-se usar o que quiser mas adverte-se: tenha bom senso. Saber de dentro de si, “conversar com Deus” e descobrir qual é esse bom senso é a recomendação dada: cada uma sabe como é melhor se vestir.

Para as marcas que atendem esse mercado, é preciso também saber ouvir essa voz interior das suas clientes.

Patricia Sant’Anna e Vivian Berto

Choque de realidade: a moda como ela é – parte 1

moda como ela é
Manequim de moulage no ateliê da Marchesa: o criador e a criatividade na moda às vezes são conceitos mal interpretados. Foto: Vogue.com

O que significa, exatamente, trabalhar com moda? Primeiro de tudo, é trabalhar, e muito. É estudar e pesquisar continuamente. Caso se procure glamour ou holofotes, é melhor buscar outro campo de atuação. Há muitos alunos que entram nos cursos de moda com uma ideia equivocada sobre esse campo profissional. Esse post não é para defender os defeitos do universo da moda, até porque nós, assim como você, denunciamos as péssimas condições de trabalho que ocorrem desde o chão de fábrica até as agências de comunicação especializadas em moda (veja aqui, aqui, aqui). Porém, queremos mostrar que muito desse olhar equivocado sobre a moda gera frustração em pessoas que desejam do universo da moda algo que jamais ela dará, nem aqui no Brasil, nem em qualquer outro país do mundo. Trabalhar com moda é jardim de rosas… lindas flores, bastante espinho, delicioso perfume, delicada sobrevivência.

Primeiro, moda não é expressão artística. Ser um criador em moda não é ser um criador no sentido das artes, mas sim no sentido do design. As restrições existem (custos, público-alvo, tendências, às vezes até o gosto pessoal do dono da marca ou do seu chefe direto) e a criatividade é como você trabalha dentro dessas restrições para criar o melhor produto. A moda quando “crescer” não vai virar arte. Ela é linguagem estética, da estética cotidiana tão bem delineada por Charles Baudelaire em Sobre a Modernidade (sim, você precisa ler!), madura o suficiente para se expressar por seus próprios meios.

Ser um criador em moda não é ser um criador no sentido das artes, mas sim no sentido do design.

Há muita fantasia em torno de trabalhar com moda de que é fazer um tipo de criação em que há uma grande liberdade de expressão. Primeira grande ilusão a ser quebrada. A criação de moda é para o outro, e este outro é um cliente. Criadores como Karl Lagerfeld nunca criam para si próprios, criam para alguém, um público, no caso consumidores da maison Chanel ou da marca Chanel. O chamado kaiser da moda já chegou a dizer numa entrevista que, antes de desenvolver qualquer coleção, ele se reúne com o departamento financeiro da empresa. Precisa saber o que vendeu, quando e quanto vendeu, em que local vendeu mais, e é a partir dessa informação estratégica de mercado é que ele cria sua próxima coleção. Não à toa que é um dos designers com insights mais inteligentes da atualidade, do desfile em Dubai até a passarela no supermercado.

moda como ela é
Coleção resort 2015 da Chanel – quem cria moda deve estar atento a um público e criar dentro dessas restrições.

Se seu objetivo é ser criador no sentido de liberdade de expressão, há espaço, mas saiba, é em ateliê e ele demanda dedicação e tempo e dinheiro para investir durante um bom tempo para conseguir viver sem depender desse negócio. Neste ponto há um diálogo com o mundo das artes, pois este é um universo difícil e muito competitivo, e que, além de criatividade, é necessário perseverança, coragem e muito, mas muito trabalho duro. Deve-se logo de cara desmistificar a ideia de artista como alguém que tem insights sem estudo, ou com ‘sorte’, e é, como uma gata borralheira, alçado ao olimpo dos deuses da arte, porque uma fada madrinha o encoraja. Bom dia, Alice! O mundo não é assim! Seja realista, fazer moda-ateliê, como fazer arte, é trabalhar, estudar, e lutar bravamente todos os dias.

Ainda há espaço aqui para confundir o que é exatamente criatividade. Quantos alunos chegam às salas de aula pensando que saber desenhar, criar croquis incríveis, ser um gênio da moulage experimental é ser criativo! Criatividade é buscar soluções inovadoras dentro das restrições. Uma pequena alteração na modelagem que deixa o caimento da calça ainda mais perfeito? Uma proposta que troca o tecido no design e que diminui consideravelmente os custos? Alterações na gestão do estoque que agilizam o processo? E que tal uma campanha bem direcionada nas mídias sociais que conquistam novos clientes? Engraçado que ninguém destaca o modelista, a piloteira, o estoquista, o departamento de marketing ou de gestão como criativos. Descordamos disso veementemente. Uma empresa criativa tem no seu modelo de negócio soluções inovadoras. Portanto, isso não é privilégio do estilista ou do designer de moda: todos os profissionais, da criação ao varejo de moda, passando pela indústria e comunicação de moda, diariamente necessitam ser criativos.

Ser criativo não é privilégio do estilista ou do designer de moda.

Na moda, aliás, cada vez menos existe a ideia do estilista e cada vez mais, a do designer. Neste post aqui sobre a profissão nós explicamos a diferença.

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Marca infantil Minimals: há inúmeros mercados que não são contemplados na SPFW – e isso a torna não tão representativa do que acontece na moda no Brasil. Foto: Minimals

Acho que não precisamos nem falar do glamour. Pensar em São Paulo Fashion Week como representativo da moda do nosso país é demonstrar certo deslumbre com um evento de moda, demonstrando total desconhecimento sobre toda engrenagem que realmente gera empregos e riqueza. O mundo de marcas, indústrias, comunicadores, profissionais das mais variadas formações (dos engenheiros têxteis e de produção aos gestores de empresas de moda, passando, lógico, pelos designers de moda) pouco ou quase nada dependem do SPFW. Como já dissemos aqui, esse evento representa apenas uma parcela pequena de todo mercado da moda brasileiro, do luxo à classe D e E, da moda bebê à moda para pessoas com deficiência, há muito mais do que essa passarela paulistana no imenso mercado de moda nacional.

Moda é glamour também, mas, sobretudo, para o cliente final. Pois é que quem compra aquele sonho que acompanha o produto, que compõem junto a muitos outros valores aquilo que é imaterial do produto de moda. O produto de moda possui uma carga simbólica muito grande e nela há espaço para o glamour. Portanto, o ele é muito mais do que um pedaço de tecido para cobrir o corpo. É para o cliente final que falamos em “nude” e “midi”, quando na prática chamamos de cor de pele, bege e longuete. Se o glamour foi o que lhe levou a querer atuar em moda, saiba que ele não é o cotidiano deste universo, e quem alimenta isso, alimenta monstros que não sabem lidar com a realidade. Costumamos dizer na Tendere que não há nada mais estranho do que um profissional (ou empresas) de moda que é (são) vítima(s) da moda. Significa, tristemente, que não entendeu(ram) nada sobre o setor em que atua(m).

Moda é glamour? Sim, mas, sobretudo, para o cliente final. Na prática, nós falamos cor de pele ao invés de “nude”, longuete no lugar de “saia midi”.

Se a moda é glamour para o consumidor final, o preço final tem pouco a ver com o tal ‘pedaço de tecido’ ou couro ou seja lá o material que esteja sendo usado. Aliás, isso não é exclusividade da moda: praticamente todas as indústrias trabalham com o preço percebido pelo consumidor e não com a fórmula simples de custo + lucro. Com a moda – e outros setores, da gastronomia ao automobilístico, seguem a mesma lógica – outras coisas vêm agregadas no produto. A imagem da marca é a primeira delas, construída cuidadosamente através de campanhas publicitárias, eventos, ações em mídias digitais, promoções dentre tantas outras ações. Atire a primeira pedra quem nunca comprou roupa ou acessório pensando na imagem que essa marca tem.

Depois, vem a experiência de compra. Também não é exclusividade da moda, mas uma experiência de compra, alinhada à imagem da marca, pode se tornar essencial para a decisão do consumidor. Uma peça que não vale tanto, sendo vendida numa superloja com ar condicionado, cafezinho, champanhe e atendimento VIP ganha o valor de tudo isso embutido. Resumindo, vamos parar de pensar moda enquanto produto final quando formos pensar em seu preço. E que existe, afinal, um “preço justo” – existe o preço que o consumidor está disposto a pagar. Na moda e em quase todos os mercados, afinal, esta é a lógica capitalista.

Equipe Tendere

continua aqui.