Por que empreendedorismo feminino é tão importante?

Por Vivian Berto

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No filme “Joy” (2015), Jennifer Lawrence vive uma mãe fundadora de um império bilionário. Foto: divulgação

 

Ela leva uma vida estressante no trabalho, não é realizada, tem horário fixo de trabalho e ainda por cima ganha menos que os homens na mesma função. Essa é uma lista clássica de motivos que levam as mulheres ao empreendedorismo. E tanto faz o tipo: pode ser desde aquela que abriu o salão de beleza na sala de casa até a que abriu uma start up inovadora na área tecnológica: todas têm sua importância e mostram um movimento que cresce a cada ano.

Qual é o perfil da empreendedora no Brasil?

De acordo com o Global Entrepreneuship Monitor 2015, as mulheres detém 49% dos novos negócios no Brasil. Segundo um estudo do Sebrae do Mato Grosso do Sul – mas que reflete bem a realidade no país todo – , o número de microempreendedoras cresceu 108% entre 2003 e 2014.

O mesmo estudo aponta os pontos positivos que as mulheres matogrossenses entrevistadas mais gostam em empreender: flexibilidade de horários, satisfação pessoal, aprendizado contínuo, independência financeira, poder de transformação…

Entre os desafios, muito além do tão falado “custo Brasil”, estão a alta carga horária de trabalho (liberdade não é fácil!), a dificuldade em conquistar clientes e a falta de mão-de-obra qualificada. Nada fácil, mas não impede que o número de empreendedoras cresça cada vez mais. Ter mais tempo para a família e para si mesma é um dos grandes objetivos de quem empreende e acaba trabalhando muitas, mas muitas horas por semana.

 

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Tá tranquilo, tá favorável (nem sempre).

 

O interesse por “empreendedorismo feminino” é certa novidade. Se formos só olhar os números de buscas no Google, mal se falava sobre esse termo antes de 2013. O empreendedorismo era mais visto como uma questão sem gênero, como se homens e mulheres tivessem as mesmas oportunidades. Hoje sabemos que não é bem assim.

 

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Buscas empreendedorismo feminino no Google entre 2009 e janeiro de 2016.

 

A busca maior pelo empreendedorismo das mulheres vem junto com um interesse muito maior (ainda bem!) sobre empoderamento das mulheres, como a Ana Paula Passarelli falou nesta entrevista que deu para o blog da Tendere.

Hoje, no Brasil, existe uma organização de Mulheres Investidoras-Anjo (MIA), que dá foco em investir em empresas de mulheres; iniciativas como o Apoie Mulheres (em plataformas de crowdfunding), organizações locais de empreendedoras, além de diversos eventos com esse foco por todo o país (aliás, compartilhe os que você conhecer nos comentários!). Tudo para fomentar, apoiar e diminuir a disparidade de gêneros.

Empreendedorismo: quando se gosta e quando se precisa

Se o empreendedorismo feminino tem, por um lado, um empoderamento das mulheres, ele também tem, por outro, uma associação com a necessidade e sobrevivência. Este artigo de Daise Rosas da Natividade mostra (com estudos do IBGE de 2004) que, mesmo com mulheres estudando mais que os homens, elas ainda tendem a permanecer na ‘base’ da pirâmide social e econômica, indicando a disparidade de gênero no mercado de trabalho que já estamos cansadas de saber. O quadro é mais grave no caso das mulheres negras.

Empreender é também uma forma de sobrevivência da economia familiar baseada no modelo monoparental: famílias com apenas mãe e filhos. Natividade ainda mostra que muitas das atividades empreendedoras das mulheres saem de saberes que são fruto de ações “com eixo familiar, local e cultural” – por isso, a grande quantidade de mulheres que empreendem em salões de beleza, negócios ligados à gastronomia e confeitaria, lojas de roupas e produtos cosméticos, entre tanto outros: até abrir uma empresa de consultoria de imagem tem a ver com o conhecimento e interesse adquiridos ao longo do tempo, na vida, na base como o gênero é tratado em nossa cultura. Essa informação é crucial quando formos pensar políticas de estímulo ao empreendedorismo.

Existe uma classificação bem clara entre os tipos de empreendedorismo, e, notavelmente, o de mulheres: podemos classificar em empreendedorismo por oportunidade e empreendedorismo por necessidade. O primeiro tem a ver com seguir os sonhos, e uma iniciativa da qual se tem alternativa – ela largou o emprego porque quis. A segunda é, como o próprio nome diz, quando não se teve muita alternativa.

O Global Entrepreneurship and Development Institute, que lança o relatório anual de empreendedorismo feminino, lança alguns insights importantes. Por exemplo, no ranking de melhores países para uma mulher empreender, estão Estados Unidos (1º), Austrália (2º) e Reino Unido (3º) cujas instituições fomentam o empreendedorismo feminino – é claro que devemos considerar também a própria situação empresarial desses países, independente do gênero. O Brasil ocupa o 18º lugar.

O mesmo relatório conclui sobre a importância das empreendedoras de “alto potencial” (high potential). São aquelas em indústrias estratégicas, com capital para investir, que empregam muitas pessoas e que exportam. É claro que todas as mulheres empreendedoras são importantes – micro e pequenas empresas fazem girar nossa economia, afinal – mas mulheres em empresas estratégicas dividem o poder que pode estar só nas mãos de homens.

Ter mulheres à frente de produtos inovadores e estratégicos – e mulheres diversas, de várias etnias e vindas de várias classes sociais – é importante para descentralizar questões de poder de poucos grupos privilegiados. Devemos continuar lutando e fomentando esse processo.

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